Fausto andava
chateado, o vizinho de cima havia trocado de carro, o vizinho de
baixo reformado a casa. Seu colega de repartição havia conseguido a
tão sonhada promoção e seu irmão estava viajando pelo belo litoral
do nordeste.
Só sua vida que
não engrenava.
- Todos progridem,
menos eu, não é possível, devem estar envolvidos em alguma atividade
ilícita. - Pensava ele entre desanimado e enciumado.
Chegava a passar
mal só em pensar que todos estavam prosperando e ele continuava na
mesmice.
Contudo, nada
fazia para que sua vida saísse da maçante monotonia, preferia
dedicar suas horas a conferir à vida alheia do que ocupar-se com
algo que pudesse de fato lhe enriquecer.
O tempo escoava
célere, as pessoas progrediam, seguiam seu caminho, e Fausto,
continuava a se preocupar em demasia com a vida dos outros.
Era praxe, se
alguém quisesse saber algo sobre a vida alheia, era só perguntar a
Fausto que este discorria com precisão e alguma pitada de maldade;
sabia que D. Maria havia comprado novo fogão, sabia que Sr. José
havia separado-se da esposa, sabia que o filho do Sr. Januário havia
sido despejado da casa.
Passaram-se vários
anos e Fausto estava do mesmo jeito, mais preocupado com a vida dos
outros do que com a sua própria. Acabou por morrer engasgado ao
tentar contar uma fofoca sobre o seu próprio filho.
O amigo leitor
conhece pessoas assim, enfeitiçadas pela vida alheia?
Muitos transitam
pelo mundo hipnotizados pela vida alheia, preocupam-se de tal forma
com os outros que esquecem-se de viver sua própria vida.
Ah, o carro novo
do vizinho! A promoção do colega de trabalho!
Ah, como seria bom
se essas coisas acontecessem comigo – exclamam, entre desanimados e
sonhadores.
Alguns chegam
mesmo a adoecer tamanha sua indignação quando vêem que outras
pessoas deslancham nos palcos do mundo.
Contudo, pouco ou
quase nada fazem pelo próprio bem.
E a existência se
esvai sem que se dêem conta de que estão desperdiçando as
oportunidades de progresso.
As chances
aparecem, a vida abre as portas, todavia, não percebe-se de tão
concentrado que se está em viver a vida dos outros.
E após o desprezo
as oportunidades que a vida oferece, freqüentemente vem as
reclamações:
Por que ele e não
eu?
Por que as coisas
acontecem aos outros e não a mim?
Quando
preocupamo-nos em exceção com a vida alheia esquecemo-nos de nós
mesmos.
Ao concentrar-se
nos equívocos e falhas de comportamento do semelhante, perdemos
tempo e disposição que poderíamos empregar na correção de nossas
tendências desequilibradas.
Amigo leitor, atentemo-nos para nossa vida, pois é
ela que realmente nos interessa, pode ser que oportunidades estejam
surgindo e estejamos desperdiçando por querermos viver a vida dos
outros e não a nossa.