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Uma jovem perigosa
Vem a propósito o que se passou, anos
atrás, com uma jovem de formação cultural invejável, numa das capitais do
país, segundo jornal da época.
Sobraçando originais de um livro
cuidadosamente preparado, chega logo de manhã a moça a uma editora de
renome. Crônicas, contos, poesias. São dignos de publicação, assim os
considera e quer que o editor aceite.
O homem interrompe os afazeres, atende a
moça, faz leitura dinâmica, vê logo que o assunto não se promove, não dá.
- É, infelizmente... no entanto, mais à
frente, outras produções. Quem sabe?
O rosto da jovem se preocupa. Está ansiosa,
sua respiração se altera:
- Mas... o senhor nem leu direito. Fique
com eles, leia com atenção.
- Infelizmente este gênero de literatura
não tem público, senhorita.
A criatura não se contém, e fala de um
mundo de ignorantes, de pessoas em lugares errados, cargos de importância
ocupados por ineptos.
O homem escuta impassível, sorriso leve,
como que se desculpando, mas dono da situação.
Estas produções - insiste ela - eu as
escrevo debaixo de grande emoção. Sério, mesmo - continua, explicando.
Levantava-se à noite, quando todos
permaneciam imersos em sono, a casa tranqüila. E vinha tudo como uma
inspiração fantástica, chegava a doer-lhe o braço, tal a vontade de
transbordar no papel sua alma emocionada.
E leu para o homem complacente mais algumas
linhas, puxando a emoção para cada sílaba, caprichando.
A voz da salvação chega com a secretária,
que chama o patrão:
- Senhor. Dona Fulana (a esposa) quer lhe
falar, urgente. Na sala ao lado.
O editor pede licença, polido, e deixa o
compartimento.
Revoltada contra o mundo, contra aquele
empresário sem nenhuma sensibilidade, contra tudo que a frustrava, no
momento, aproveita aquela saída e, num átimo, tranca-se por dentro. O
escritório agora é seu.
Chegou a hora da vingança. E com todos os
requintes e pormenores, passa a destruir o palco das súbitas desilusões. A
fúria só se contém entre os braços da polícia. No Distrito Policial, a
dúvida se desvanece: o caso é da competência do Departamento de
Assistência ao Psicopata.
Se os apressados críticos julgam tratar-se
de mais um caso de loucura na cidade grande, nós que conhecemos o assunto
já sabemos que estamos à frente de uma psicógrafa novata sob processo
obsessivo.


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