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Conclusão de psiquiatra enseja estudos
O jornal Folha de S.Paulo publicou na edição
de 7 de junho de 2004, página A-12, entrevista com o psiquiatra Jerrold M.
Post, em reportagem assinada por Sérgio Dávila, cujo título é o mesmo que
usamos na presente matéria. Jerrold M. Post fundou na CIA (a agência norte-americana
de espionagem) o Centro de Análise de Personalidade e Comportamento Político
e tem realizado, a pedido do governo, perfis psicológicos de líderes mundiais.
Através dos anos, o experimentado psiquiatra tem coletado dados e publicado
suas observações em livros, sendo pioneiro nesta área. Em seu mais recente
livro Leaders ant Their Followers in a Dangerous World (líderes e seus seguidores
em um mundo perigoso), como destaca a reportagem, o psiquiatra afirma que
"(...) de todos os líderes que perfilou, Saddam é o mais traumático (...)"
. E o repórter, citando a frase, indaga ao entrevistado: "Por quê?" E a resposta
do médico motivou-nos a presente abordagem: "É o caso clássico de uma pessoa
com o 'eu machucado', que poderia ter sido um adulto inseguro e ineficaz,
mas que em vez disso tomou o caminho do narcisismo maligno. O 'eu machucado'
vem de sua infância, que é diferente de todos os líderes que eu já perfilei.
Aos quatro meses da gravidez de Saddam, sua mãe perdeu o marido; poucos meses
depois, o filho mais velho morreu na mesa de operações, vítima de câncer.
Ela então tentou fazer um aborto, malsucedido, e tentou se matar. Quando Saddam
nasceu, tentou matá-lo. E isso é só o começo." A opinião do psiquiatra, que
também é professor do programa de psicologia política da Universidade George
Washington, nos Estados Unidos, faz pensar, para analisar a questão à luz
da Doutrina Espírita. Ninguém discute que Saddam é um líder, ainda que tenha
usado o autoritarismo ditatorial, e por outro lado, não vivemos no Iraque
para analisar a realidade da convivência de seu povo com o regime ditatorial
vivido. Não nos cabe, portanto, nesta abordagem, analisar as questões internacionais,
suas implicações, origens e conseqüências advindas do momento histórico das
últimas décadas e que envolveram os respectivos países e seus líderes. O assunto,
inclusive, merece análise sociológica, histórica, política e mesmo psicológica
do ponto de vista coletivo. O que nos move com a presente matéria é trazer
a visão espírita sobre o comportamento de Saddam. E não exclusivamente sobre
Saddam. Quantos crimes diários acontecem no planeta, com requintes de perversidade,
crueldade, chocando a opinião pública e a sensibilidade de todos nós? Esta,
a visão espírita, todavia, nos convida à indulgência. O perfil psicológico,
como dissemos, faz pensar numa história de vida que não conhecemos, embora
também não possamos ficar apenas com a versão norte-americana apresentada
pela mídia e por outros interesses internacionais. Fiquemos, porém, com o
que nos interessa no trecho da resposta do psiquiatra. O "eu machucado". Kofi
Annan, secretário-geral das Nações Unidas, em entrevista à revista Veja (edição
1858, de 16 de junho de 2004), da Editora Abril, em entrevista com o título
O diálogo nos salvará, quando indagado sobre a impressão que teve no contato
pessoal com Saddam, afirma que "A aparência de Saddam Hussein era a de um
homem comum. Tinha fala mansa, calma, lenta. Quase não gesticulava enquanto
falava. Nada em sua fisionomia ou comportamento delatava suas idéias. Uma
vez, durante um encontro, comecei a pensar como pôde um homem daqueles fazer
tanta crueldade contra seu próprio povo..." Ora, não nos cabe julgar. Mas
podemos refletir. O espírito Elisabeth de França, em mensagem publicada por
Allan Kardec na Revista Espírita* de março de 1862, e posteriormente integrada
pelo Codificador no capítulo XI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, convida:
"(...) Deveis amar os infelizes, os criminosos, como criaturas de Deus às
quais o perdão e a misericórdia serão concedidos se se arrependerem, como
a vós mesmos, pelas faltas que cometerdes contra a sua lei. Pensai que sois
mais repreensíveis, mais culpáveis do que aqueles aos quais recusais o perdão
e a comiseração, porque, freqüentemente, eles não conhecem Deus como vós o
conheceis, e lhes será menos pedido do que a vós. Não julgueis nunca; oh!
Não julgueis nunca, meus caros amigos, porque o julgamento que fizerdes vos
será aplicado mais severamente ainda, e tendes necessidade de indulgência
para com os pecados que cometeis sem cessar. Não sabeis que há muitas ações
que são crimes aos olhos de Deus de pureza, e que o mundo não considera mesmo
como faltas leves? (...)" De fato, como julgar? Nem conhecemos a história
completa daquele que se apresenta massacrado pelo ocidente. O que sabemos
se resume nas notícias da mídia, quase sempre comprometida com interesses
inconfessáveis. O fato, porém, é que a conclusão do psiquiatra, referindo-se
ao "eu machucado", deve levar-nos à compreensão sobre comportamentos alheios,
muitas vezes apresentados como criminosos, mas que apenas refletem a desarmonia
interior ou um longo histórico de lutas e dificuldades que não conseguiram
vencer ou administrar convenientemente. Lutas e dificuldades que não conhecemos.
E continua o espírito: "(...) Amai-vos, pois, como os filhos de um mesmo pai;
não façais diferenças entre os outros infelizes, porque é Deus que quer que
todos sejam iguais; não desprezeis, pois, a ninguém; Deus permite que os grandes
criminosos estejam entre vós, a fim de que vos sirvam de ensinamento. (...)
Deveis àqueles dos quais vos falo o socorro de vossas preces: é a verdadeira
caridade (...)" A conclusão da expressiva mensagem, que em O Evangelho Segundo
o Espiritismo recebeu o título de Caridade para com os criminosos, é verdadeiramente
uma lição para os dias atuais, que tanta violência tem apresentado aos olhos
humanos. O espírito autor diz que, ao invés de condenarmos alguém que se equivocou
com o crime, julgando-o um miserável, merecedor de ser expulso do planeta
com a morte, deveríamos pensar em qual seria a posição de nosso modelo, Jesus.
O que diria Ele se visse junto a si um desses infelizes? E conclui o espírito:
"(...) Lamentá-lo-ia; considerá-lo-ia como um enfermo muito miserável; estender-lhe-ia
a mão. Vós não podeis fazê-lo em realidade, mas ao menos podeis orar por esse
infeliz, assistir o seu Espírito durante os poucos instantes que deve ainda
passar sobre a vossa Terra. O arrependimento pode tocar seu coração se orardes
com fé. É vosso próximo como o melhor dentre os homens; sua alma transviada
e revoltada é criada, como a vossa, à imagem de Deus perfeito. Orai, pois,
por eles; não o julgueis nunca, não o deveis nunca. Só Deus o julgará". Entre
nós, são muitas as pessoas com o "eu machucado" à nossa volta. Traumas, dificuldades,
complexos, inibições, mágoas e causas outras de origem emocional e psicológica,
atravancam a plena expansão das potencialidades humanas. E muitas vezes são
causadoras das grandes tragédias individuais ou coletivas, como tem ocorrido
com freqüência no planeta que habitamos. O dever da solidariedade recíproca
que deve reger os relacionamentos, e que inclui a recomendação do espírito,
acima transcrita parcialmente, convida à postura de amenizar as aflições humanas
e não ao seu agravamento. Comecemos, desde já, com aqueles de nossa própria
convivência e juntos continuaremos a caminhada evolutiva. Em paz, pelo menos.
Neste contexto todo, entretanto, das questões internacionais, pondera com
muita propriedade o Secretário-geral da ONU, Kofi Annan (1): "(...) os americanos
deveriam ouvir um pouco mais o que os outros têm a dizer (...)". É a velha
questão do respeito ao próximo... |