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Para o dicionarista Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira “arrependimento” é uma insatisfação
causada por violação de lei ou de conduta moral, e que resulta na
livre aceitação do castigo e na disposição de evitar futuras
violações. Essa é a
definição da ética, e se refere mais particularmente à lei e à moral
humanas. No aspecto religioso define-se pela intensificação dos
matizes de remorso que se instala na consciência ao ensejo de erro
cometido e que pode impulsionar ao desiderato de mudança de
comportamento e ao desejo de penitenciar-se.()
Pela invigilância precipitamos nas síndromes de culpa [considerada
aqui como uma falta voluntária a uma obrigação, ou a um princípio
ético]()
irrompendo de súbito o remorso tisnado de múltiplos aspectos,
impondo manchas de sombra à tessitura sutil do perispírito. Este
estado de contrição, incessantemente potencializado pelo pulsar das
reminiscências denegridas, consubstancia-se num vórtice mental,
intoxicando-nos, pouco a pouco, espraiando ao nosso redor um halo
contaminado pela desarmonia íntima, corrompendo, não raro, a
psicosfera espiritual de quem compartilha nossa companhia. Este
fenômeno psíquico se constitui do martírio da consciência e, por
essa razão, densas e sombrias forças de angústias se insinuam.
Diversas pessoas moderadas,
muitas vezes, por invigilância, tornam vítimas quase inermes do
pensamento impetuoso, tornando-os mais acicatados na consciência do
que os imprudentes. Muitas vezes sob o guante da excitação
momentânea, que caracteriza a impulsividade, deixam-se abater por
inconsolável arrependimento, dando azo a um angustioso impacto de
inquietação da consciência ante a condição tardia para desfazer o
equívoco consumado.
É importante também sabermos que
após cometermos um erro conscientemente, este pode propagar em nós a
possibilidade de reabilitação, razão pelo qual não devemos nos
entregar apáticos ao desalento ou remorso anestesiante. Por todos os
motivos possíveis precisamos nos acautelar contra as atitudes
intempestivas. Fujamos dos propósitos inferiores sob pena de mais
tarde inevitavelmente sermos consumidos pela aflitiva sensação de
contrição psíquica.
Ajuizemos quanto à direção dos
próprios passos, de maneira a evitarmos o nevoeiro da aflição sob o
acicate do pesar profundo que permanecerá em nós, advertindo sobre o
mal praticado. Urge, desse modo, a busca do autoperdão, da
auto-aceitação, da auto-estima estimulado pelo esforço de
reequilíbrio espiritual, a fim de minimizar os reparos dos danos
causados.
Os reveses da vida física podem
significar penitências dos equívocos do passado e, ao mesmo tempo,
experiências provacionais presentes, delineando o porvir. Desse
modo, depreende-se que da dimensão de tais desventuras se possa
inferir qual gênero foi a jornada reencarnatória anterior.
Freqüentemente é isso possível, pois que cada um é corrigido naquilo
por onde errou. Todavia, não há como interpretar daí uma regra
universal. As tendências e fortes pendores instintivos constituem
indício mais seguro, posto que os testemunhos por que passa o
Espírito o são, tanto pelo que tange ao passado, quanto pelo que
toca ao futuro.
Consoante as lições kardecianas,
a duração da expiação, para qualquer transgressão, é indeterminada e
está atrelada ao arrependimento do culpado com o conseqüente retorno
ao bem. A punição permanece de acordo com a obstinação no mal, e
seria infindo se a obstinação fosse permanente; e de rápida duração
se o arrependimento surge imediatamente. Diante disso, e como a
consciência nunca dorme, somos constrangidos a ser juizes da própria
sorte, podendo abreviar o suplício ou prolongá-lo indefinidamente.
Nossa felicidade, ou infelicidade depende da vontade de fazermos o
bem. E, nesse contexto, a submissão paciente aos sofrimentos da vida
é atitude de alto relevo para a consumação da quitação do débito
contraído.
Nunca será redundante repetir-se
que, assim como pensamos e agimos, edificaremos a existência,
vivendo-a de conformidade com o comportamento elegido. Suportar a
dor da culpa e aproveitá-la para meditar, para orar, para se
aproximar de Deus é a expressão da sabedoria, até porque Jesus nunca
nos abandona, e espera de nós a atitude mais austera e sincera.
Sofrendo a punição, que suplanta o orgulho e o egoísmo podemos ter a
certeza de estarmos galgando superiores degraus na escala do
crescimento espiritual. ()
Lembremo-nos, em suma, do
ensinamento do Mestre, “vigiando e orando, para não sucumbirmos
às tentações, de vez que mais vale chorar sob os aguilhões da
resistência que sorrir sob os narcóticos da queda”.()
Arrostemos, pois, o tormento do remorso, da consciência culpada,
com denodo, resignação e sobretudo comprometidos com a reforma
íntima. É tarefa fácil?... não! É difícil?... bastante! Um dos
grandes desafios para nós. Mas é justamente no momento de acérrimas
expiações que demonstramos ao Senhor da Vida a expressão do avanço
moral sob o influxo da resignação que nos conduzirá à placidez da
consciência retificada.
Xavier, Francisco Cândido. Fonte Viva, ditado pelo Espírito
Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 2004, Cap.110
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