|
Dentre os princípios do
Espiritismo, a reencarnação talvez seja o tema mais empolgante. Rejeitada
por aqueles que não se deram ao trabalho de entender o assunto e
constantemente pesquisada por aqueles que lhe alcançam os fundamentos, a
realidade da multiplicidade das existências corpóreas é a única que
explica as gritantes diferenças humanas.
Existem obras notáveis abordando
a questão, antes e depois da Codificação Espírita. Como nosso objetivo é
destacar a obra fundamental do Espiritismo, O Livro dos Espíritos,
neste mês em que se completa 147 anos de sua publicação (mês que também se
comemora os 140 anos de lançamento de O Evangelho Segundo o Espiritismo),
utilizaremos uma única questão da referida obra, dentre as várias que
tratam das vidas sucessivas.
A questão é a de número 222 e
está entre aquelas que não constituem uma pergunta aos Espíritos, mas
considerações do próprio Codificador. São 11 páginas da lavra de Allan
Kardec, naturalmente inspiradas pelos Espíritos Codificadores, mas também
contendo os argumentos sólidos de sua inteligência e perspicaz senso de
observação e análise.
No desenvolver do raciocínio, no
texto, Allan Kardec apresenta as seguintes questões: “1) Por que mostra
a alma aptidões tão diversas e independentes das idéias que a educação lhe
fez adquirir?; 2) Donde vem a aptidão extranormal que muitas crianças em
tenra idade revelam, para esta ou aquela arte, para esta ou aquela
ciência, enquanto outras se conservam inferiores ou medíocres durante a
vida toda?; 3) Donde, em uns, as idéias inatas ou intuitivas, que noutros
não existem?; 4) Donde, em certas crianças, o intuito precoce que revelam
para os vícios ou para as virtudes, os sentimentos inatos de dignidade ou
de baixeza, contrastando com o meio em que elas nasceram?; 5) Por que,
abstraindo-se da educação, uns homens são mais adiantados do que outros? e
6) Por que há selvagens e homens civilizados? (...)” .
E ainda acrescenta: “1) Se a
nossa existência atual é que, só ela, decidirá da nossa sorte vindoura,
quais, na vida futura, as posições respectivas do selvagem e do homem
civilizado?; 2) O homem que trabalhou toda a sua vida por melhorar-se,
virá a ocupar a mesma categoria de outro que se conservou em grau inferior
de adiantamento, não por culpa sua, mas porque não teve tempo, nem
possibilidade de se tornar melhor?; 3) O que praticou o mal, por não ter
podido instruir-se, será culpado de um estado de coisas cuja existência em
nada dependeu dele?; 4) Trabalha-se continuamente por esclarecer,
moralizar, civilizar os homens. Mas, em contraposição a um que fica
esclarecido, milhões de outros morrem todos os dias antes que a luz lhes
tenha chegado. Qual a sorte destes últimos? Serão tratados como réprobos?
No caso contrário, que fizeram para ocupar categoria idêntica à dos
outros? e 5) Que sorte aguarda os que morrem na infância, quando ainda não
puderam fazer nem o bem, nem o mal? Se vão para o meio dos eleitos, por
que esse favor, sem que coisa alguma hajam feito para merecê-lo? Em
virtude de que privilégio eles se vêem isentos das tribulações da vida?
(...)”.
São questões para pensar,
raciocinar mesmo! Afinal elas levam à lógica e à coerência da
multiplicidade das existências, único meio racional para explicar as
diferenças humanas dentro de um critério incomparável de justiça e
igualdade entre os filhos de Deus.
Na ocorrência do presente mês de
abril, que a família espírita traz na lembrança com o mês de O Livro
dos Espíritos (pelo seu lançamento em 18 de abril de 1857), e ainda
coincidindo com o bicentenário de nascimento do Codificador – comemorado
em 2004 –, nada mais oportuno que convidarmos a nós mesmos a novamente
estudar a importante questão 222 da citada obra. Pelo menos para estarmos
bem preparados com argumentos sólidos diante dos argumentos contrários à
reencarnação. E também, é óbvio, estarmos sintonizados com a correta
postura de espíritas que estudam continuamente.
Matéria publicada originariamente no jornal
O Clarim, de abril de 2004.

 |