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QUADRO DOLOROSO, MAS REAL...

Durante visita a imensa instituição, cujo complexo estrutural está em construção e prevê instalações para hospital, escola, oficinas de profissionalização, alojamentos e atendimentos em diversas áreas, a equipe de amigos viveu dolorosa surpresa, apesar dos desdobramentos cheios de emoção.

            A instituição está sendo erguida no centro de região muito pobre, cercada de dificuldades sociais imensas, razão pela qual é muito procurada para atendimentos médicos e para socorro de um dos grandes males da humanidade: a fome. A população praticamente não tem a quem recorrer, razão pela qual a iniciativa social tornou-se a tábua de salvação daquela gente sofrida.

            No momento da visita, esquálida mãe surge com três crianças muito pequenas, uma delas com menos de dois anos. Levava no colo a criança com um quadro difícil de ser visto: os dois pés estavam numa situação de além de “carne viva”. A criança já nem chorava, nem febre tinha. Por falta de conhecimentos médicos, não sei descrever o estágio de putrefação da pele, cuja cor é semelhante a um verde escuro metálico.

            Sem julgar as razões, seja por negligência ou ignorância da pobre mãe, a atendente, o médico, e a própria equipe ali presente, comoveu-se diante do doloroso quadro. A internação e talvez até a amputação de ambos os pés parecia-nos inevitável.

            Desconheço a conclusão da questão, pois o fato ocorreu em região distante, e estou aguardando relato sobre a atual situação. Não sei se a amputação foi feita. O que sei é que foi necessária transfusão de sangue, pois havia um quadro de anemia profunda, agravada com pneumonia que se instalou logo após a internação.

            Um outro lado da questão, todavia, também se apresentou.

            A pessoa que conduziu a equipe, em gesto de muito desprendimento, assumiu os gastos de internação e cirurgias que se fizessem necessárias. Mãe e filha foram hospitalizadas numa clínica particular, dada a urgência do caso e a precariedade do atendimento público disponível. E essa mesma pessoa que assumiu a responsabilidade também foi quem doou o próprio sangue para o atendimento emergencial da criança.

            Lições que tiramos dos dramas da vida humana.

            O quadro é real, doloroso. E traz a situação de muitas pessoas que ainda vivem em condições subumanas, onde se misturam miséria, ignorância, abandono, indiferença social, egoísmo humano (daqueles que permitimos tais abandonos)  e uma lista infindável de razões próprias de nossa limitada condição humana.

            Durante o trajeto para a internação, pudemos dirigir palavras de estímulo e coragem à pobre mãe, que nada respondeu. Dissemos-lhe da Bondade Divina que nunca abandona seus filhos, da coragem que ela precisava reunir para enfrentar a própria realidade e da necessidade de erguer os olhos para a confiança em si mesma e na própria vida, pois nunca nos encontramos desamparados ou abandonados.

            Basta observarmos que mãe e filha, sem quaisquer condições de serem amparadas, tiveram o mérito de receberem assistência de primeira linha ao lado do quadro próprio de necessidades que traziam em si, encontrando benfeitora que as atendeu. A própria mãe declarou depois que “nunca havia dormido numa cama como aquela” na clínica que a atendeu.

            Nossa condição humana solicita, implora mesmo, que voltemos nossos olhos para esses quadros de miséria e necessidade que estão ao nosso lado e por toda parte.

            Olhos de pessimismo? Não. E mais: não é só carência material como no relato acima. Muitos traumas psicológicos e emocionais travam a iniciativa, a coragem, a decisão, cegando a visão de muita gente.

            Sejamos nós, pois, aqueles que distribuamos a coragem, o entusiasmo. Ao invés da crítica, sejamos daqueles que agem, que procuram caminhos, que distribuem esperança e alegria, motivação e afeto.

            Espalhar sementes de dignidade, fé e esperança, é o único caminho de harmonização do planeta, pois voltamo-nos para a excelente virtude da solidariedade, onde o amor aniquila as misérias sociais...

 

Artigo gentilmente cedido por Orson Peter Carrara
Atualmente reside com a família em Matão-SP,
atuando na área de Assessoria Editorial.

      http://www.orsonpcarrara.rg3.net

 

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