** Pensar e repensar antes de divulgar **
















 

De vez em quando (não se diga 'de quando em vez') vêem-se autoridades falarem, por imposição do momento, cousas que irão desdizer mais tarde. O grande mal foi terem um microfone a sua frente ou até antenas indiscretas. Pensar antes de dizer ou de escrever é recomendação preciosa. E, se divulgar é importante, amadurecer o pensamento é bem melhor.

Não divulgue apressadamente o que num dado impulso escreveu ou que lhe ditaram. Uma boa experiência é guardar o escrito para relê-lo e, se necessário, retocar. nem há desdouro em voltar atrás.

Problema sério, o da aceitação pura e simples do que se escreveu sem antes examinar a conveniência de divulgar, seja o próprio autor ou o medianeiro. É útil divulgar isso? É instrutivo? Pode causar confusão? Uma mensagem de caráter particular - qualquer delas - deve ou pode tornar-se pública? Quando? Que benefícios trará? Médiuns notáveis inutilizaram mensagens recebidas sobretudo aquelas de uma fase de treinamento. Mensagens as há repetitivas. Muitas delas sem erros, mas sem acréscimos quanto a tudo que já se disse. De outras, a beleza do que terá sido dito não guardaria necessária correlação com as instruções requeridas. Kardec reuniu ao fim de O Livro dos Médiuns belas mensagens - até com assinaturas célebres - onde, em adendo, explicou que eram inócuas, levavam a absurdos, enfim, eram apócrifas.

Sério demais seria o caso de uma mensagem estranhamente acolhida em notável obra biográfica e interpretativa sobre o Codificador - mensagem essa que rejeitamos de raso - é uma opinião pessoal - em que ele teria dito que a codificação deveria ser revista e, com isso, aplainadas arestas e asperezas, corrigidas omissões, podados certos excessos, esclarecidas dúvidas interpretativas... A inconveniência é a de, ao longe, se admitir a quem atribuir a autoridade moral e a competência de refazer o trabalho, em que pontos, por que justificativa. Se tal empreitada fosse eventualmente aceita por alguém, de que lado ficaríamos, com o pretenso revisor? Lamentamos, isto sim, o fato de autores que reverenciamos chegassem à distração de, sem uma atenção maior, agasalharem mensagem tão descabida - e outras tantas ainda se publicam - em obra tão valiosa. Uma pena. Certo, a criatura humana não é infalível. Pode obscurecer-se-lhe a razão. É certamente esse o caso presente... Pois que, atribuírem-se ao mestre lionês palavras porventura inspirada na modéstia não vem ao caso, em face da grandeza da obra em que tomou parte mas que não foi individualmente dele. O zelo com que a acolheu, depois de exaustivos estudos, a perspicácia que sempre teve no exame dos assuntos questionados, nada disso dá a ninguém - nem a ele próprio, no caso! - o direito de propor revisões; ou de vir alguém a modificá-la a seu talante, baseada em que tipo de pressupostos.

Lógico que não eram de sua época conhecimentos que vieram depois da obra consubstanciada. Mas a filosofia instituída é que é básica e, por via de raciocínio lógico e equivalência de conceitos, deduzem-se os ângulos agora abordados por enquadramento e pelo bom senso.

Excessos não houve. Não seriam de considerar-se omissões quando tratou das bases da doutrina. Dentro delas tudo se enquadra. Todas as grandes filosofias ainda hoje falam por si diante de todo o progresso humano e tecnológico. Dúvidas interpretativas têm-nas aqueles incapazes de chegarem até onde ele conseguiu, na convivência e no diálogo com a equipe de que fizera parte integrante. Clareza não lhe faltou, ainda que nem todos sejam capazes, de fato, de chegar até lá, o que seria um sonho; nesse caso, seriam limitações não propriamente dele, que foi profundo no entender e preciso no explicar. Tanto que ouviu os conselhos de Erasto para que aceitasse as revelações, mas que rejeitasse 'n' pretensas verdades desde que se poupasse de admitir uma só impostura.

É onde me sinto neste comentário de advertência, honestamente, sem azedumes.


Caminhos da divulgação espírita
Alberto de Souza Rocha
Publicações Lachâtre