Prática mediúnica é bastante facilitada com preparo do médium

      Sabe-se que a mediunidade é um instrumento de trabalho em favor do aprimoramento do próprio portador e ferramenta útil em favor da humanidade, como veículo intermediário de bênçãos, instruções e consolações espirituais.

      Faculdade multiforme, independente da moral quanto à sua constituição orgânica e extremamente vinculada aos caracteres morais quanto ao seu uso; dependente da atuação dos espíritos para sua efetiva manifestação, requer disciplina e conhecimento para ser conduzida de forma coerente como bem recomenda a Doutrina Espírita. Sem escolha de sexo, cor, raça, condição social-religiosa ou econômica-intelectual, ela poderá manifestar-se em decorrência de compromisso assumido antes da encarnação e até como prova ou expiação.

      Isso tudo sem nos estendermos sobre aquelas qualificadas como missionárias...

      O fato concreto, entretanto, é que ela, a mediunidade, é um instrumento conduzido pelo seu portador.

      Em virtude dessa possibilidade de intercâmbio entre os que são médiuns e aqueles erroneamente chamados de mortos e que potencialmente poderiam utilizar-se dela para se manifestarem aos chamados vivos, surge a questão do porquê os Espíritos que, quando na Terra, brilharam como homens bons e sábios, rareiam suas comunicações. Por que, verdadeiramente, não se manifestam à altura de suas antigas produções terrenas, seja pela literatura, pelas artes, etc?

      Deixemos a lúcida resposta com Um Espírito Protetor, seguida por observação de Allan Kardec, publicadas na Revista Espírita de fevereiro de 1865 (edição EDICEL, tradução de Júlio Abreu Filho). A clareza da resposta, que transcrevemos parcialmente, é de uma beleza meridiana:

      "(...) Para se fazer ouvir, os Espíritos devem agir sobre os instrumentos que estejam ao nível de sua ressonância fluídica. Que pode fazer um bom músico com um instrumento detestável? Nada. Então! Muitos, senão a maioria dos médiuns, são para nós instrumentos muito imperfeitos. Compreendei que em tudo é necessário similitude, assim nos fluidos espirituais, como nos fluidos materiais. Para que os Espíritos adiantados possam se vos manifestar, necessitam de médiuns capazes de vibrar com eles em uníssono; (...) Assim, Galileu não poderá manifestar-se realmente senão a um astrônomo capaz de o compreender e transmitir sem erro os seus dados astronômicos; (...) Beethoven, Mozart procurarão músicos dignos de poder transcrever seus pensamentos musicais; os Espíritos instrutores, que vos desvendam os segredos da natureza, segredos pouco conhecidos, ou ainda ignorados, precisam de médiuns que já compreendem certos efeitos magnéticos e que tenham estudado bem a mediunidade. Compreendei isto, meus amigos; refleti que não encomendais uma roupa ao chapeleiro, nem vossas cabeleiras a um alfaiate. Deveis compreender que necessitamos de bons intérpretes (...) Regra geral: quando quiserdes um calculador, não vos dirigis a um dançarino. (...)".

      Muito interessante!

      E na seqüência, Kardec traz sua observação pessoal: "Esta comunicação repousa num princípio verdadeiro, que resolve perfeitamente a questão do ponto de vista científico, mas não poderia ser tomado num sentido muito absoluto. À primeira vista, o princípio parece contradizer os fatos tão numerosos de médiuns que tratam dos assuntos fora de seus conhecimentos e pareceria implicar, para os Espíritos superiores, a possibilidade de só se comunicarem com médiuns a sua altura. Ora, isto não se deve entender quando se trata de trabalhos especiais e de uma importância muito alta. Concebe-se que se Galileu quiser tratar de uma questão científica, se um grande poeta quiser ditar uma obra poética, tenham necessidade de um instrumento que responda ao seu pensamento, mas isto não quer dizer, para outras coisas, uma simples questão de moral, por exemplo, um bom conselho a dar, não poderão fazê-lo por um médium que nem seja cientista, nem poeta. Quando um médium trata com facilidade e superioridade assuntos que lhe 'são estranhos', é um indício de que o seu Espírito possui um desenvolvimento inato e faculdades latentes, fora da educação que recebeu".

      A clareza e objetividade de Kardec empolga e faz entender a questão em toda sua amplitude. O assunto é vasto e abre muitas perspectivas. O fato, porém, é que um espírito encontra mais facilidade num instrumento preparado pela habilidade, conhecimento ou experiências arquivadas, desta ou de outras existências.

      Isto não impede, todavia, como pondera o próprio Kardec, que um espírito superior comunicante neutralize as deficiências do médium e transmita seu recado.

      Mas, sem dúvida, um médium preparado facilita o trabalho dos espíritos. Daí a necessidade da disciplina, das condições morais concernentes à prática da mediunidade. Daí a importância de o médium instruir-se, conhecer o assunto, inclusive da própria faculdade de que é portador.

      Alguém que se exercite na oratória, por exemplo, poderá ser bem utilizado por espíritos que o utilizam na transmissão de ensinos através da oratória. Um escritor bem treinado poderá ser inspirado por espíritos que queiram psicografar. Uma pessoa que desenvolva os sentimentos de fraternidade para com todos poderá tornar-se um bom instrumento no atendimento às necessidades humanas.

      E, claro, na prática mediúnica propriamente dita, nos ambientes reservados de nossas casas espíritas, o médium disciplinado, sintonizado com os propósitos superiores, integrado na tarefa do Espiritismo, poderá, igualmente, tornar-se um instrumento eficaz que os espíritos irão se utilizar para transmitir seus recados e instruções.

      Uma questão lógica, não é mesmo? Mera questão de sintonia...


Matéria publicada originariamente na REVISTA INTERNACIONAL DE ESPIRITISMO, de julho de 2004.