Receita
apresentada contraria crítica
Uma crítica infundada, dirigida a
Santo Agostinho, foi publicada em 1o de setembro
de 1868, na Bélgica, pela Vedette de Limbourg, jornal de
Tongres, e com o título Cretinismo. Allan Kardec
publicou trechos parciais em sua Revista Espírita*, edição de
dezembro de 1866, que igualmente transcrevemos parcialmente da
edição referida. Assim se refere o trecho específico:
“Segundo Santo Agostinho, o
mundo visível é governado por criaturas invisíveis, por puros
Espíritos, e mesmo há anjos que presidem a cada coisa visível, a
todas as espécies de criaturas que estão no mundo, quer sejam
animadas, quer inanimadas. (...) Pode julgar-se por esta prova do
gênero de leitura que faz a juventude educada nos conventos. É
possível conceber – deixem passar a expressão – qualquer coisa de
mais profundamente estúpido? (...) Em seu livro, que não convém
menos aos eclesiásticos do que aos leigos, o autor desdobra uma
força de razão e de estilo que aclara e submete o espírito; de sua
pena flui uma unção que penetra e ganha o coração. É a obra de um
homem profundamente versado na espiritualidade. Nós dizemos: é a
obra de um homem tornado louco pelo ascetismo, muito mais a lamentar
que a censurar. (...)”
Após a transcrição do trecho
acusador, Kardec acrescenta dois curtos parágrafos, dos quais
destacamos: “(...) Agostinho é universalmente considerado como um
dos gênios, uma das glórias da humanidade, e eis que com uma penada
um escritor obscuro, um desses jovens que se julgam a luz do mundo,
atira lama sobre esse renome secular, pronuncia contra, na sua alta
razão, a acusação de cretinismo e isto porque ele acreditava em
criaturas invisíveis. A conta disto, quantos cretinos não há entre
os mais estimados literatos contemporâneos! (...) Eis a escola que
aspira a regenerar a sociedade pelo materialismo. Assim pretende ela
que a humanidade volte à demência. (...)”
Pois é pensando exatamente na
regeneração da humanidade, na melhora moral dos habitantes do
planeta que o genial Agostinho, o mesmo acusado de cretinismo,
respondendo à indagação de Allan Kardec (na questão 919 de O
Livro dos Espíritos**) sobre o meio prático mais eficaz que
tem o homem de se melhorar nesta vida e resistir à atração do mal,
definiu: Conhece-te a ti mesmo.
Kardec não se satisfez e voltou à
questão, perguntando: Qual o meio de consegui-lo?
E Santo Agostinho, em resposta de
duas páginas, dá a receita. Elaborando pequena síntese da longa e
bem ponderada resposta, podemos – para efeito didático de estudo –
apresentá-la como autêntico roteiro para uso diário. Após sugerir
avaliação diária, interrogando a própria consciência – como ele
igualmente fazia quando na vida física –, como caminho do
autoconhecimento, a resposta pode ser resumida em cinco itens para
auto-avaliação, ainda que em outras palavras:
a)
Interrogarmo-nos sobre o que temos feito;
b)
Com que objetivo fizemos ou agimos dessa
ou daquela forma;
c)
Se fizemos algo que censuraríamos se
praticado por outra pessoa;
d)
Se algo fizemos que não ousaríamos
confessar;
e)
Se ocorresse a desencarnação, teríamos
temor do olhar de alguém?
E finalmente, entre outras
importantes considerações, recomenda que examinemos se agimos contra
Deus, contra nosso próximo e contra nós mesmos. E conclui o
raciocínio que as respostas obtidas nos darão o descanso para a
consciência ou a indicação de um mal que precisa ser curado.
A resposta de Agostinho é de
meridiana beleza e contém um argumento irrecusável para nossas ações
cotidianas: “(...) Quando estiverdes indecisos sobre o valor de
uma de vossas ações, inquiri como a qualificaríeis, se praticada por
outra pessoa. Se a censurais noutrem, não na podereis ter por
legítima quando fordes o seu autor (...)”
Pois são estas notáveis
anotações, dirigidas com o objetivo de nos auxiliar a própria
transformação moral, que trará a felicidade e o equilíbrio à
humanidade, que estão assinadas por Santo Agostinho, aquele que tão
levianamente foi acusado de cretinismo.
O fato, por si só, já nos permite
grave reflexão pessoal nos relacionamentos que todos mantemos uns
com os outros.
*Editora Edicel (1966),
tradução de Júlio Abreu Filho.
** 80a
edição FEB (1998), tradução de Guillon Ribeiro.
Nota do autor: sugerimos
leitura completa da questão 919 de "O Livro dos Espíritos".
Matéria publicada originariamente no jornal O Clarim, edição de
junho de 2005.
Artigo gentilmente cedido por
Orson Peter Carrara
Assessor de Imprensa da
Casa Editora O Clarim
em Matão SP
http://www.orsoncarrara.hpg.ig.com.br
http://www.orsonpcarrara.rg3.net
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