DIFICULDADES PARA A IMPLANTAÇÃO

 

O Espiritismo necessitou de muito trabalho e perseverança para consolidar-se em nossa pátria.

Em meados da década de 1880 o Espiritismo havia conquistado incontáveis adeptos em toda as camadas sociais, desde humildes trabalhadores até membros da nobreza.

As múltiplas facetas da Doutrina propiciaram o aparecimento de grupos que a enfocavam de formas diferentes, causando diversificação indesejável e perigosa para a implantação do Espiritismo, baseado nos ensinamentos dos Espíritos, codificado por Allan Kardec.

Variadas correntes de pensamentos deram origem a grupos e causaram polêmicas e dissensões nas hostes espiritistas. Esquecidos do princípio da fraternidade, que deveria norteá-los, promoveram divisões desnecessárias e prejudiciais. A diversidade de entendimento gerava confusão, dificultava e retardava a consolidação da Doutrina em nosso País.

Vários grupos disputavam a primazia da verdade:

Os swedenborguistas (admiradores dos ensinamentos de Swedenborg (1681 -1772), sueco que viveu na Inglaterra, portador de extraordinária mediunidade, cujos livros mediúnicos fizeram enorme sucesso, tendo sido o primeiro homem, no Ocidente, a descrever o Além-Túmulo) entendiam o Espiritismo como uma continuidade dos ensinamentos desse grande médium, que, sem dúvida, foi um dos precursores da Doutrina dos Espíritos.

Os roustainguistas, defensores das revelações mediúnicas coordenadas pelo célebre francês J. B. Roustaing, contidas no livro "Os Quatro Evangelhos", obra mediúnica atribuída aos espíritos dos Evangelistas.

Os "puros", que aceitavam sem restrições apenas "O Livro dos Espíritos" da Codificação.

Os kardecistas, que aceitavam plenamente nas obras da Codificação.

Os científicos, que, a exemplo dos franceses, viam o Espiritismo apenas como um ramo da Ciência.

Os místicos, apologistas do Espiritismo como uma religião cristã, vendo-o como o Cristianismo redivivo.

Estes dois últimos grupos eram os que possuíam maior número de partidários e que mais claramente divergiam a se antagonizavam.

Na realidade, ambos poderiam e deveriam se unir, como partes de um mesmo todo. O Espiritismo compreende os três aspectos: Ciência, Filosofia e Religião.

Os acontecimentos de logo após a proclamação da República trouxeram um clima de instabilidade e perseguição religiosa. A arbitrariedade policial se fez sentir.

Os científicos encerraram suas atividades; os místicos reuniam-se às escondidas.

No dizer de Canuto de Abreu, os quatro inimigos do Espiritismo cantavam hinos de triunfo: o Positivismo, o Materialismo, o Catolicismo e o Racionalismo.

O Espiritismo desmembrou-se: passou a ser praticado às escondidas na intimidade dos lares.

Em 1895, as forças espíritas já se achavam reorganizadas, porém, continuava o antagonismo de idéias entre místicos e científicos.

A Federação Espírita Brasileira estava acéfala, com a renúncia de seu Presidente. Alguns dos mais destacados espíritas, amigos de Bezerra de Menezes, foram convidá-lo para assumir a direção daquela casa, pois acreditavam que ele reunia todas as condições para resolver os impasses existentes no seio da família espírita.

Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcante (1831 - 1900), cearense, da freguesia do Riacho de Sangue, aos vinte anos de idade partiu para o Rio de Janeiro para estudar Medicina. Pobre, lutava com grande dificuldade para manter-se na capital. Um dia, após pagar as taxas da faculdade, estava sem recursos e sem possibilidade de pagar o aluguel do quarto, quando foi procurado por um jovem que desejava algumas aulas de Matemática e entregou-lhe certa importância, para evitar que viesse a esbanjar a mesada que havia recebido. Bezerra preparou-se, mas... o estudante nunca mais voltou.

Bezerra de Menezes formou-se, clinicou; foi cirurgião tenente do Exército; casou-se e teve dois filhos; enviuvou; elegeu-se vereador e deixou o Exército para exercer as novas funções; foi deputado federal, casou-se em segundas núpcias com D. Cândida Augusta de Lacerda Machado, com quem teve sete filhos. Exerceu a Medicina com amor e devoção, sem qualquer preocupação de remuneração; com freqüência, dava a seus pobres o dinheiro necessário para a compra dos remédios, o que lhe valeu o cognome de "Médico dos Pobres".

Em 1885, leu "O Livro dos Espíritos", recebido de presente de seu amigo Travassos e, mesmo antes de terminar a leitura, tornou-se espírita, tão profunda foi a impressão causada por seus ensinamentos. Dedicou-se ao estudo, à prática, à divulgação e defesa da Doutrina com extremada dedicação.

Tal era o homem que fora convidado para presidir a Federação.

Após ouvir os companheiros, Bezerra pede um prazo para decidir: estava em dúvida.

No dia seguinte (ainda sem saber se devia ou não assumir a responsabilidade de aceitar o convite para dirigir a nobre sociedade que se achava sem presidente e desorientada), participou de uma sessão espírita no Grupo Ismael. Estava pensativo e emocionado até às lágrimas, quando, através do médium Frederico Júnior, um Espírito Superior, para demonstrar-lhe que não lhe faltaria o auxílio da Espiritualidade, disse-lhe:

- "Nós te ajudaremos, trazendo-te, quando preciso discípulos de Matemática".

Todas as incertezas imediatamente desapareceram, estava convicto que devia aceitar a tarefa e que teria o auxílio da Espiritualidade. (Somente Bezerra de Menezes conhecia os fatos ocorridos, no seu quarto da pensão, quando estudante.)

O Médico dos Pobres foi à luta e venceu com o auxílio de uma plêiade de espíritos de escol encarnados e desencarnados.

A "bandeira de Ismael" com as insígnias "Deus, Cristo Caridade" foi desfraldada na Federação Espírita Brasileira e, com ela, paz e harmonia no seio do Espiritismo brasileiro, onde ele floresceu, alicerçado na Codificação Kardequiana, em seu tríplice aspecto: Ciência, Filosofia e Religião.

Do livro: Tire suas dúvidas - Grandes Temas Espíritas
Autor: Homero Moraes Barros
Editora Didier


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Formatação: Damião da Silva Leão