Desprendimento

       Quantas inquietações ligadas ao apego à matéria seriam evitadas, se conseguíssemos olhar a vida com os olhos do Espírito!
       É uma questão de perspectiva.
       Para quem só vê a vida corporal, ela pode ser um padecer interminável. A frustração de não obter os bens que almejaríamos, de ver os anos passarem sem realizar nossos sonhos, enquanto que o outro parece ter tudo que sempre quis e, por outro lado, o medo de perder o que temos, pode consumir toda nossa tranqüilidade e alegria de viver.
       Mas quando se olha pela perspectiva da vida espiritual, vê-se a existência presente como um pequeno capítulo de nossa vida verdadeira e se compreende a brevidade e a utilidade das condições em que vivemos.
       Lacordaire (Espírito) utiliza a seguinte figura: O homem que se aferra aos bens terrenos é como a criança que somente vê o momento que passa. O que deles se desprende é como o adulto que vê as coisas mais importantes. (O Evangelho..., Cap. XVI, 14)
       Um futuro de paz e felicidade aguarda todos os Espíritos ao fim de sua jornada, por mais que a estrada seja cheia de obstáculos que os desafiem e ponham em xeque sua paciência.
       O dinheiro e os recursos materiais de que dispomos, tanto quanto a carência deles, sào simplesmente mais um meio de progredirmos, uma prova para o Espírito.
       É por isso que o Espiritismo não condena a riqueza, nem faz apologia da miséria e da pobreza, mas aconselha o desprendimento dos bens materiais.
       Eles nos servem, têm a sua utilidade enquanto se está encarnado, mas atrasam a caminhada de quem se apega excessivamente.
       Notemos que o desprendimento não é o desprezo ou a ojeriza mas, sim, uma disposição interna que nos permite aplicar com mais sabedoria e equilíbrio os recursos em nossas mãos.
       Pela riqueza, estais revestidos do caráter sagrado de ministros da caridade na Terra para dela serdes os dispensadores inteligentes - lembra Lacordaire.
       O desprendimento dos bens terrenos é, ainda, uma preparação para o desencarne - o desprendimento maior - quando se desatam as ligações fluídicas entre o Espírito e o corpo e chega a hora de apreciar com mais clareza o qe fizemos de tudo o que a Bondade Divina nos houve por bem emprestar.
       Tanto o desperdício quanto a recusa às dádivas divinas para o progresso, que muitas vezes assumem a forma de posses materiais, muito significarão na hora de fazer o balanço de nossa existência recém-concluída. Se Deus nos dá a oportunidade, não devemos jogá-la fora. Aí então, se tivermos sabido usar o dinheiro e as coisas que adquirimos, com critério e sabedoria mas sem supervalorizá-los, partiremos com mais liberdade para novos estágios de progresso.
       Por outro lado, as reuniões de doutrinação e desobsessão nos apresentam inúmeros e dolorosos quadros, situações aflitivas de Espíritos que não conseguem, mesmo desencarnando, desvincular-se das coisas materiais.

RITA FOELKER