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Sabemos que a Doutrina Espírita é pura e incorruptível. Porém, o movimento
espírita, ou seja, a organização dos homens para praticá-la e divulgá-la é
suscetível dos mesmos graves prejuízos que dificultaram a ação do cristianismo
tradicional, hoje bastante fracionado. Observamos com tristeza muitas diretorias
das casas espíritas que se mantêm sob uma incômoda e rígida hierarquia (aquela
do aqui mando e quero ser obedecido!). São dirigentes contaminados pela
prepotência no exercício do cargo e totalmente vazios de consciência sobre os
seus encargos. Destarte, permanecem bastante longe da prática evangélica,
inventando um “Espiritismo” estranho ao projeto da Terceira Revelação.
Como não se pode imaginar o espírita com duas condutas divergentes, a conduta do
homem e a conduta do espírita, também não se pode imaginar o movimento espírita,
ora acontecendo segundo os preceitos espíritas, ora segundo outros preceitos
duvidosos, aceitos equivocadamente no seu contexto em nome da tolerância piegas.
Kardec é único. Espiritismo também, por conseguinte. O mestre lionês sempre
preconizou a unidade doutrinária. Não há o menor espaço para compor com outras
idéias que não sejam, ou convergentes e em uníssono com as suas, ou reflexos
resplandecente destas. Unidade doutrinária foi a única e derradeira divisa de
Allan Kardec, por ser a fortaleza inexpugnável do Espiritismo. Por isso,
necessita ser o nosso lema, o nosso norte, a nossa bandeira.
Muitas vezes os Centros Espíritas transformam-se em ilhas de isolamento, por
falta de estudo sério, aprofundado e metodizado da Doutrina, donde surgem
inúmeras interpretações equivocadas sobre os seus postulados, em prejuízo da
verdade doutrinária. Se abraçamos o Espiritismo, por rota de crescimento
espiritual, não podemos negar-lhe fidelidade. Porém, é a lamentável falta de
fidelidade aos conceitos e princípios do Espiritismo, que são difundidos de
forma truculenta por dirigentes ignorantes, que têm isolado as casas espíritas,
tornando-as ilhadas e desérticas de consolação!...
O compromisso do Centro Espírita e dos dirigentes é com a Doutrina Espírita. A
adoção de teorias e práticas exóticas, ou não afinadas com a simplicidade e
pureza dos trabalhos espíritas, comprometem o objetivo da Casa Espírita e
desorientam seus freqüentadores e assistidos. Quando citamos a palavra pureza,
os “vanguardistas de plantão” arregalam os olhos o coçam as orelhas, exclamando:
AH! Lá vem esse purista!! Cabe salientar, porém, que André Luiz, em “Conduta
Espírita”, não deixa margem para dúvidas sobre isso, senão vejamos: "A PUREZA DA
PRÁTICA DA DOUTRINA ESPÍRITA DEVE SER PRESERVADA A TODO CUSTO".(1)
Infelizmente, o despreparo e os atavismos de muitos indivíduos, que colaboram de
boa vontade nas fileiras espíritas, fazem com que certas práticas, pouco
condizentes com a pureza doutrinária, se implantem em diversas instituições e
acabem mesmo divulgadas em palestras, livros e periódicos ditos espíritas. Quem
compreende essa situação deve trabalhar para modificá-la. A via mais segura,
para isso, é a do esclarecimento, do estudo, do convencimento pela razão e pelo
amor, jamais pelos anátemas, óbvio!...
Para os mais apressados, a pureza doutrinária é a defesa intransigente dos
postulados espíritas, sem maior observância das normas evangélicas; para os não
menos afoitos, é a rígida igualdade de tipos de comportamento, sem a devida
consideração aos níveis diferenciados de evolução em que estagiam as pessoas.
Sabemos que o excesso de rigor na defesa doutrinária pode levar a graves erros,
se enredarmos pelas trilhas do fundamentalismo injustificável, posto que
redundará em divisão inaceitável em face dos impositivos da fraternidade. Se
tivermos que nos equivocar, que seja com atitudes e jamais por omissão. Nesse
tópico, veio-me à mente (como estranha moral!), porém, sublime advertência
cristã: “NÃO PENSEIS QUE VIM TRAZER A PAZ À TERRA; NÃO VIM TRAZER PAZ, MAS
ESPADA.”(2)
Os espíritas não são proibidos de coisa alguma, mas sabendo que devem arcar com
a responsabilidade de todos os atos, conscientes do desequilíbrio que possam
praticar. Que terão que reconstruir o que destruírem e responderão pelo mal
praticado e harmonizarão o que desarmonizarem, etc. Não podemos fingir que tudo
está em ordem e harmônico às mil maravilhas ou que somos sublimes cristãos. Em
verdade, existem inúmeras práticas não compatíveis com o projeto doutrinário
que, por isso, urge sejam combatidas à exaustão, porque nas pequenas concessões
é que vamos desestruturando o edifício kardeciano e descaracterizando o projeto
da Terceira Revelação. Por isso, é óbvio que estejamos atentos contra ideologias
estranhas aos objetivos espíritas, em nome da mais legítima fraternidade, até
porque: QUEM AVISA AMIGO É!!!
O Espiritismo não aceita “donos da verdade”, até porque a espiritualidade e
Kardec ensinam que a Revelação Espírita é progressiva, não estando completa em
parte alguma e nem precisamos fazer um esforço descomunal para nos
cientificarmos de que são raros os centros espíritas que podem se dar ao luxo de
praticar a mediunidade na sua mais pura acepção. Muito melhor, e mais prudente,
seria que os núcleos e grupos espíritas despreparados intensificassem as
reuniões de leitura, meditação e comentários racionais para as conclusões
seguras, fugindo de um inoportuno e prematuro intercâmbio com as forças do além.
Até porque, prática mediúnica sem uma robusta base cultural e moral será,
inevitavelmente, uma incursão permanente no mundo das sombras.
Por isso, insistimos - e temos publicado no “meu site” - o tema sobre centros
espíritas que propõem aplicações de luzes coloridas (cromoterapias) para
higienizar auras humanas e curar (acreditem!!!): azia, cálculo renal, coceiras,
dores de dente, gripes, soluços em crianças, verminose, frieiras. Se não
bastasse, recomenda-se até carvãoterapia (?!) para neutralizar "maus-olhados".
Nesse sentido, segundo crêem, é só colocar um pedaço de tora de carvão debaixo
da cama e estaremos imunes do grande flagelo da humanidade - o "olho comprido".
Não satisfeitos, ainda têm aqueles que “engarrafam” literalmente os obsessores.
Difunde-se, por aqui, (DF), a coqueluche da moda: uma tal de desobsessão por
corrente mentoeletromagnética (sic), com as mais extravagantes proposições. Há
as inusitadas piramideterapias, gatoterapia(???) (conheço pessoa que possui
cinco gatos em casa para “atrair” as energias negativas), cristalterapias,
apometrias e mais uma dezena de terapias bizarras, isso sem esquecermos que, na
mística Brasília, aplicam-se, até, passes magnéticos nas paredes dos centros
para “descontaminá-las”. Há casa espírita, por aqui, que evoca “ET” para um
contato imediato(!?)
Conhecemos outras práticas estranhíssimas ao projeto espírita, a saber:
dirigentes promovendo casamentos, crismas, batizados, velórios (tudo no salão de
palestras), além das sempre “justificadas” rifas e tômbolas nos centros,
festival da caridade, tribuna para a propaganda político-partidária, preces
cantadas. Isso, para não aprofundar nos inoportunos trabalhos de passes com
bocejos, toques, ofegações, choques anímicos (?), estalação dos dedos, palmas,
diagnósticos pela “vidência": sobre doenças e obsessões, etc... Dias atrás,
entrei numa certa Federação Espírita (fora de Brasília) e observei vários
cartazes, convidando para cursos e palestras sobre a “kundaline”, a força da "mandala",
etc... Ufa!!!
Para entendermos a mediunidade, em seus conceitos básicos, temos que separar o
fenômeno, em si mesmo, da Doutrina Espírita e definirmos o aspecto fenomênico,
apenas por matéria de observação e Espiritismo como a luz que esclarece os
fatos. Em todos os cantos da Terra existem manifestações medianímicas, pois elas
não ocorrem somente nos núcleos espíritas. Por isso, na sua real interpretação,
podemos assegurar que, no atual estágio do projeto espírita, os fenômenos não
são prioritários, mas secundários. A questão fenomênica não mais constitui ponto
de partida para o atual objetivo do Espiritismo na Terra.
Destarte, para evitarmos determinadas práticas perfeitamente dispensáveis em
nome da pureza doutrinária, entendamos que prática de fidelidade aos preceitos
kardecianos é processo de aprendizagem, com responsabilidade nas bases da
dignidade cristã, sem quaisquer laivos de fanatismo, tendente a impossibilitar
discussão sadia em torno de questões controversas. Porém, não olvidemos que
espírita-cristão deve ser o nosso caráter, ainda mesmo que nos sintamos em
reajuste, depois da queda. Espírita-cristã deve ser a nossa conduta, ainda mesmo
que estejamos em duras experiências. Espírita-cristão deve ser o nome do nosso
nome, ainda mesmo que respiremos em aflitivos combates íntimos. Espírita-cristão
deve ser o claro objetivo de nossa instituição, ainda mesmo que, por isso, nos
faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres.
FONTES:
(1) Xavier, Francisco Cândido. Conduta Espírita, ditada pelo espírito André
Luiz, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2005
(2) Bíblia Sagrada - (Mateus, 10;34 a 36) |