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“O amor é a força mais abstrata e, também, a mais poderosa que o mundo possui."
(Mahtama Gandhi)
Em face dos conceitos espíritas, aprendemos que, nos albores de sua evolução,
predominam no homem as cargas instintivas. Na medida em que avança na escala da
evolução, surgem as sensações. Com o passar dos milênios, irrompem os
sentimentos - ponto fundamental para o desabrochar do amor. Isto posto,
analisemos os sentimentos que advêm das tendências eletivas e o das afinidades
familiares. Na primeira condição, estão as expressões complexas do desejo, do
sensualismo; na outra situação, sedimentam-se a fraternidade e o enlevo
conjugal, numa simbiose mágica, químio-eletro-magnética, na entranha do ser.
Na questão 938-a de "O Livro dos Espíritos" aprendemos o seguinte: "A natureza
deu ao homem a necessidade de amar e de ser amado. Um dos maiores gozos que lhe
são concedidos na Terra é o de encontrar corações que com o seu simpatizem".(1)
O amor deve ser o objetivo excelso no roteiro humano para a conquista da paz na
sua expressão apoteótica. Porém, diversas vezes, o nosso sentimento é meramente
desejar, e tão-somente com o "desejar", desfiguramos, instintivamente, os mais
promissores projetos de vida. Alguns estudiosos estabelecem que o "amor" é a
resultante de uma determinada reação química comandada pelo cérebro. (!?) Deste
modo, sobressai-se a feniletilamina(2) produzida pelo organismo, à medida em que
surge uma atração sexual intensa. A Dra. Hellen Fischer, estudiosa do tema,
afirma que o romantismo tende a desvanecer-se em pouco tempo. Fischer afirma,
ainda, que existe outra substância relacionada ao "amor": a Oscitocina, que
sensibiliza os nervos nas contrações musculares, mas o efeito dessas substâncias
é pouco duradouro, resultando nas separações entre os casais, razão do grande
número de divórcios.(3) (sic)
Nesses argumentos absurdamente mecânicos, os "especialistas" propõem uma análise
dos sentimentos, apenas como resultante de um amontoado de forças nervosas,
movimentando células físicas, regidas pela combinação de substâncias
neurotransmissoras. É totalmente despropositada essa tese que subestima a
vontade, o pensamento, o livre-arbítrio do ser racional, atribuindo-se o
"arrefecimento do amor" ao simples processo de descompensação hormonal e às
alterações das combinações neuropsicoquímicas.
Nos dias de hoje, fala-se e escreve-se muito sobre o sexo e pouco sobre o amor.
Certamente, porque esse sentimento não se deixa decifrar, repelindo toda
tentativa de definição. Por isso, a poesia, campo mítico por excelência,
encontra, na metáfora, a tradução melhor da paixão, como se esta fosse o amor.
Segundo o psiquiatra William Menninger, "o amor é um sentimento que a gente
sente quando sente que vai sentir um sentimento que jamais sentiu".(4)
Entendeu?... Nem eu! Esse vazio conceptual deve-se à dificuldade de manifestação
de solidariedade e fraternidade no mundo de hoje. O desenvolvimento dos centros
urbanos criou a "síndrome da multidão solitária". As pessoas estão lado a lado,
mas suas relações são de contigüidade.
A paixão é exclusivista, egoísta, dominadora, é predominantemente desejo. Para
alguns pensadores, esse sentimento é a tentativa por capturar a consciência do
outro, desenvolvendo uma forma possessiva, onde surge o ciúme e o desejo de
domínio integral da pessoa "amada". O legítimo amor é o convite para sair de si
mesmo. Se a pessoa for muito centrada em si mesma, não será capaz de ouvir o
apelo do outro. Isso supõe a preocupação de que a outra pessoa cresça e se
desenvolva como ela é, e não como queiramos que ela seja. O amor representa a
liberdade, e não o psicótico sentimento de posse. É a lei de atração e de todas
as harmonias conhecidas, sendo força inesgotável que se renova sem cessar e
enriquece, ao mesmo tempo, quem dá e quem recebe.
Podemos até afirmar que o amor é quase tudo o que imaginamos ser: é o
extasiar-nos com a presença do outro, sem que essa presença seja a nossa única
razão de existir e sonhar; é a índole de ajudar o outro, todavia sem exigir que
o outro seja ou faça, somente, o que julgamos correto; é a sublimidade dos bons
sentimentos dirigidos ao outro, porém, sem que haja limites ou condições para
que expressemos tais sentimentos; é o abraço, o olhar sereno, o aperto de mão, a
palavra dúctil e tranqüila, os ouvidos atentos para ouvir; tudo isso em função
do outro, contudo, sem que venhamos impor, ao outro, que nos recompense; e, mais
ainda, que todo esse sentimento possa ser projetado a todas as pessoas, não
somente aos nossos consangüíneos, mas aos amigos próximos e companheiros de
jornada humana.
Se quisermos melhor contemplar e traduzir o que é amor, inspiremo-nos na
placidez dos campos, no sussurro do frágil regato, na cadência dos silvos dos
pássaros ao lado da destreza instintiva da ave tecelã... Arrebatemo-nos no
tremeluzir das flores em multicores, nas pétalas singelas que espalham aromas em
pequenos canteiros, nas miríades de mundos que enfeitam galáxias nos jardins do
firmamento e no brilho feérico da estrela que jaz no infinito. O amor está
presente na leve brisa que acaricia os ramos de uma roseira e nos vendavais que
agitam ondas imensas nos oceanos; está no tênue sussurro da criança e, também,
nas estrondosas explosões solares; está na força do jovem que busca seu espaço
ao sol e na sabedoria do ancião que recorda e descansa; está na graciosidade da
borboleta e na habilidade inconteste dos reflorestadores alados. O amor é a
dinâmica da vida, e a harmonia da Natureza é o remédio para todos os males que
atormentam o homem.
Em síntese, tudo o que possamos idealizar sobre o amor pode se consubstanciar
como parcela deste sentimento, mas ele é muito maior e mais abrangente, até
porque o bem-querer, toda a bondade, a tolerância, a alegria, a proximidade, só
poderão ser um fragmento do amor quando não tiverem laços no apego, na imperiosa
necessidade de permuta, no egoísmo que exige sempre condições e regras.
Em verdade, o amor só será verdadeiro e incondicional quando for dilatado por
todos nós, a todas as coisas e a todos os seres que nos cercam, nessa estupenda
experiência humana que é a própria vida.
NOTAS
(1)Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB ed. 2002,
questão 983-a
(2)Líquido oleoso, incolor, redutor enérgico, uso como reagente [fórm.: C6H8N2]
(3)Fischer , Helen. The Anatomy of Love, New York: Norton,1992
(4)Menninger, Willian C.. e Munro Leaf. ABC da psiquiatria , São Paulo: ed.
Ibrasa 1973 1 edição tradução de Nair B. |