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Jesus foi o primeiro proponente do serviço social que a História tem notícia.
Antecedendo às propostas da ciência psicológica moderna, defendidas por
renomados pesquisadores, o Mestre de Nazaré, há dois mil anos, comprovava que a
legítima felicidade não é individual, mas é o somatório da felicidade das
pessoas que se encontram em nossa dimensão de vida quotidiana. A solidariedade e
a beneficência são fundamentos máximos de bem-viver. Falamos de religião e
rotulamos nossa crença, porém, enquanto não descermos até nosso irmão
necessitado, não chegaremos à maturidade espiritual.
Na Terra, surgiram várias denominações filosófico-religiosas para apontarem a
trilha da beneficência. Algumas delas bifurcaram-se, enquanto outras
anatematizaram-se, e a mensagem, que apontava o caminho da caridade, ficou
truncada por ausência do amor entre nós.
Temos muitas religiões, mas pouca religiosidade. O Cristianismo, atualmente, é a
religião mais difundida no mundo, com cerca de 2 bilhões de fiéis. Divide-se em
três ramos principais: Catolicismo, Igreja Ortodoxa e Protestantismo. O
movimento cristão organiza-se, primeiro, em Jerusalém e é, a princípio, um
movimento dentro do Judaísmo. Posteriormente, os cristãos são perseguidos pelo
Império Romano. A situação muda em 313, quando o imperador Constantino lhes
concede liberdade de culto. Em 392, o Cristianismo passa a ser a religião
oficial do Império e missionários são enviados a várias partes da Europa para
fundar igrejas, ocupando todo o continente. No fim da Idade Média, a expansão
européia leva o Cristianismo à América e à Ásia. A partir do Século XIX,
missionários chegam, também, à África e ao leste da Ásia, espalhando o Evangelho
por todo o mundo.
Neste ponto do texto, pedimos licença para consignar algumas definições breves
sobre religião[1], e iniciemos com o Catolicismo. O termo deriva do grego
katholikos (universal). A adoção desse nome vem da idéia de uma igreja que pode
ser aceita e levar a mensagem a qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo.
Está associada à expansão do Império Romano e ao surgimento dos novos reinos em
que este se divide. Sua difusão se vincula ao desenvolvimento da civilização
ocidental e ao processo de colonização e aculturação de outros povos. Hoje, o
Catolicismo possui mais de 1 bilhão de adeptos, aproximadamente 18,7% da
população mundial. A maioria - cerca de 39% - encontra-se na América Latina. O
Brasil é o país que reúne o maior número de católicos no mundo. Segundo o IBGE,
120 milhões de brasileiros declaravam-se católicos em 1991 (cerca de 83% da
população do país).[2]
Da Igreja de Roma, surge a Renovação Carismática Católica nos Estados Unidos, em
meados da década de 60, divergindo de alguns conceitos do Vaticano. Nessa
trilha, nasce, na mesma década, a Teologia da Libertação, principalmente na
América Latina, em que se destaca o teólogo brasileiro e ex-frade franciscano,
Leonardo Boff, um dos formuladores do movimento. No livro “Jesus Cristo
Libertador”(1972), Boff admite o emprego das teorias marxistas na análise do
atraso das sociedades do terceiro mundo.
Sobre o Protestantismo[3], sabemos ter surgido como movimento cristão com a
chamada Reforma Protestante, iniciado pelo teólogo alemão Martinho Lutero, no
Século XVI, que rompe com a Igreja Católica. As críticas de Lutero ao
Catolicismo começam em 1517. O alemão defende ser a fé o elemento fundamental
para a salvação do indivíduo e condena a venda de indulgências pela Igreja e o
relaxamento dos costumes do clero da época. O Protestantismo divide-se em
Protestantismo histórico, criado a partir da Reforma, e Protestantismo
pentecostal, surgido no começo do Século XX. Calcula-se que o Protestantismo
tenha cerca de 500 milhões de adeptos em todo o mundo. O Brasil reúne o maior
número de protestantes da América do Sul, cerca de 13 milhões de pessoas,
segundo pesquisa realizada pelo instituto Datafolha em 1994.[4]
O Judaísmo é considerado a primeira religião monoteísta da humanidade.
Cronologicamente, é a primeira das três religiões originárias de Abraão (as
outras são o Cristianismo e o Islamismo). Existem, atualmente, cerca de 13,5
milhões de judeus no mundo, dos quais 4 milhões em Israel. No Brasil, segundo o
IBGE, havia cerca de 86 mil em 1991. A Federação Israelita do Estado de São
Paulo estima que, hoje, esse número chegue a 110 mil.[5]
O Islamismo é uma religião monoteísta fundamentada nos ensinamentos de Maomé,
contidos no livro islâmico, o “Alcorão” (do árabe al-qur'ãn, leitura)[6]. A
palavra islã significa "submeter-se" e exprime a submissão à lei e à vontade de
Alá (Allah, Deus em árabe). Estima-se que reúna mais de 1 bilhão de fiéis (18%
da população mundial), em especial, no norte da África, no Oriente Médio e na
Ásia. Há duas facções do Islamismo – os sunitas e os xiitas. Calcula-se que 83%
dos muçulmanos sejam sunitas. Para eles, a autoridade espiritual pertence à
comunidade como um todo. Os xiitas (16% dos muçulmanos) são partidários de Ali,
marido de Fátima, filha de Maomé. Seus descendentes teriam a chave para
interpretar os ensinamentos do Islã. São líderes da comunidade e continuadores
da missão espiritual de Maomé. A rivalidade com os sunitas é tragicamente
exacerbada, sobretudo após a revolução iraniana liderada por Ruhollah
Khomeini.[7]
Existem os princípios dos Hinduísmos, a rigor um conjunto de conceitos,
doutrinas e práticas religiosas, que surgem na Índia a partir de 2000 a.C. Estão
embasados no Vedas[8]. Suas características principais são o politeísmo e a
crença na reencarnação. Estima-se que, hoje, exista mais de um bilhão de adeptos
no mundo.
O Budismo é um sistema ético, religioso e filosófico, fundado pelo príncipe
hindu Sidarta Gautama (563 a.C.?-483 a.C.?), o Buda, por volta do Século VI a.C.
Ensina como superar o sofrimento e atingir o nirvana[9] por meio de disciplina
mental e de uma forma correta de vida. O Confucionismo é outro ramo religioso do
mundo oriental, e, também, é uma filosofia, uma ideologia política. É um legado
da tradição literária baseado nas idéias do filósofo chinês Confúcio (551
a.C.-479 a.C.). Permaneceu como doutrina oficial na China durante quase 2 mil
anos, do Século II até o início do Século XX. Atualmente, 25% da população
chinesa afirmam viver segundo a ética confucionista. Fora da China, o
Confucionismo possui cerca de 6,3 milhões de seguidores, principalmente no
Japão, na Coréia do Sul e em Cingapura.[10] No Confucionismo, não existem
sacerdotes ou igrejas. As cinco virtudes essenciais são: o amor ao próximo, a
justiça, o cumprimento das regras adequadas de conduta, a autoconsciência da
vontade do Céu e a sabedoria e sinceridade desinteressadas. Somente aquele que
respeita o próximo é capaz de desempenhar seus deveres sociais.
Para o Almanaque Abril/98, o Espiritismo é doutrina religiosa baseada na crença
da existência do espírito (alma), independente do corpo, e em seu retorno à
Terra em sucessivas encarnações, até atingir a perfeição. Sua principal corrente
é o Kardecismo, formulado em 1857, em “O Livro dos Espíritos”, pelo professor
francês Allan Kardec (1804-1869), pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail.
O Espiritismo afirma que as reencarnações permitem a evolução gradativa do
espírito para se redimir de erros passados. Todas as faltas podem ser reparadas.
Não há estatística mundial sobre o número de seguidores do Espiritismo. No
Brasil, segundo o IBGE, cerca de 1,6 milhões de pessoas declaravam-se espíritas
em 1991. De acordo com uma pesquisa realizada em 1994, pelo instituto DataFolha,
esse número chega a 5,5 milhões.[11] Atualmente, mais de 30 milhões de
brasileiros têm alguma simpatia pelos princípios kardecianos.
As religiões ensinam sobre a importância da beneficência. O Espiritismo afirma
que “Fora da Caridade não há Salvação”. Os Benfeitores do além nos advertem que
sem caridade toda fé religiosa se resume a uma adoração sem proveito; a
esperança não passa de uma flor incapaz de frutescência e a própria filantropia
se circunscreve a um jogo de palavras brilhantes, em torno do qual os nus e os
famintos, os necessitados e enfermos costumam parecer pronunciando maldições.
O Espírito Néio Lúcio cita, no último capítulo do livro “JESUS NO LAR”, o
seguinte trecho: "(...) após o último culto doméstico na casa de Simão Pedro,
nas vésperas de embarcar para a cidade de Sidon, o Mestre abriu o livro de
Isaías e comentou-o com sabedoria, após o que, proferindo a prece de
encerramento, advertiu: - Pai, ajude os que não se envergonham de ostentar
felicidade ao lado da miséria, do infortúnio e da dor.(...) Ergue aqueles que
caíram sob o excesso do conforto material".[12] (destacamos).
“Num belo apólogo, conta Rabindranath Tagore que um lavrador, a caminho de casa,
com a colheita do dia, notou que, em sentido contrário, vinha suntuosa
carruagem, revestida de estrelas. Contemplando-a, fascinado, viu-a estacar junto
dele e, semi-estarrecido, reconheceu a presença do Senhor do Mundo, que saiu
dela e estendeu-lhe a mão a pedir-lhe esmolas...
O quê? - refletiu, espantado - o Senhor da Vida a rogar-me auxílio, a mim, que
nunca passei de mísero escravo, na aspereza do solo? Conquanto excitado e mudo,
mergulhou a mão no alforje de trigo que trazia e entregou ao Divino Pedinte
apenas um grão da preciosa carga. O Senhor agradeceu e partiu. Quando, porém, o
pobre homem do campo tornou a si do próprio assombro, observou que doce
claridade vinha do alforje poeirento... O grânulo de trigo, do qual fizera sua
dádiva, tornara à sacola, transformado em pepita de ouro luminescente...
Deslumbrado, gritou:
-Louco que fui!... Por que não dei tudo o que tenho ao Soberano da Vida?" [13]..
Na atualidade da Terra, quando o materialismo compromete edificações veneráveis
da fé, no caminho dos homens, sabemos que o Cristo pede cooperação para a
sementeira do Evangelho Redivivo que a Doutrina Espírita veicula. E, propondo
este artigo humilde à um punhado de gravetos para o lume da Nova Revelação, e,
reenfatizo, humildemente, ante a bondade do Cristo:
“-Ah! Senhor!... Compreendo a significação de Teus apelos e a grandeza de Tua
munificência, mas perdoa ao pequenino servo que sou, se nada mais tenho de mim
para te dar!” [14]
A lição é clara e expressiva o suficiente. Por isso, reflitamos sobre ela, para
que não permaneçamos na sombra do comodismo, na forma de prática religiosa, só
por conta da etiqueta social.
FONTES:
[1] Cf. Almanaque Abril 98
[2] idem
[3] O nome protestante é atribuído, na época, aos partidários da Reforma que
protestam contra a Dieta (assembléia convocada pelos reis) de Espira (1529). A
Igreja Protestante, também conhecida como Evangélica, reivindica a reaproximação
da Igreja com o cristianismo primitivo.
[4] Cf. Almanaque Abril 98
[5] idem
[6] coletânea das diversas revelações transcendentes recebidas por Maomé de 610
a 632.
[7] Cf. Almanaque Abril 98
[8] conhecimento, em sânscrito, conjunto de textos sagrados compostos de hinos
de louvor e ritos
[9] estado d’alma de total paz e plenitude
[10] Cf. Almanaque Abril 98
[11] idem
[12] Xavier, Francisco Cândido. Jesus no Lar, Ditado pelo Espírito Néio Lúcio,
RJ: Ed. FEB, 2002
[13] Dedicatória de Ismael Gomes Braga in livro Cartas e Crônicas, psicografia
de Chico Xavier, ditado pelo Espírito Irmão X, RJ: ed FEB, 1966.
[14] Idem |