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A humildade é o fundamento de todas as virtudes. Há os que elevam conceitos ou
exageram virtudes de si próprios. Todavia, o humilde não se deixa lisonjear
pelos elogios ou pela situação de destaque na qual se encontre por ter
consciência do pouco que sabe diante da amplitude do saber.
Não concordamos com oradores espíritas que fazem questão de manter em seus nomes
a sigla "doutor" e se vangloriam desse pronome de tratamento (1) nos eventos que
participam em nome do Cristo. Importa ressaltar que o emprego ultrapassado de
"doutor" é comum entre a gente mais humilde e sem instrução que associam a
palavra a um status social ou a um nível de autoridade superior ao seu.
Estratificações sociais que não se coadunam com o Evangelho.
Contudo é como se diz: "em terra de cego quem tem um olho é Rei". Ora, em terra
de milhões de analfabetos, quem tem o título de bacharel é "doutor". Mas, a
rigor, o título de "doutor" é conferido pelas universidades aos estudiosos, após
concluírem curso de graduação e, mediante defesa de uma tese conseguem aprovação
diante de uma banca de notáveis.(2) Etimologicamente, o vocábulo "doctor"
procede do verbo latino "docere" ("ensinar"). Significa, pois, "mestre",
"preceptor", "o que ensina". Da mesma família é a palavra "douto"que significa
"instruído", "sábio".(3)
O principal pronome de tratamento, consagrado universalmente e o único que os
legítimos espíritas devem usar como necessária manifestação de respeito, não
importa a quem estejam se dirigindo, é "Senhor"/"Senhora" usando-se sempre o
tratamento direto.(4) Por isso, quando um dirigente estabelecer um novo
relacionamento com os oradores espíritas, limite-se ao uso de "Senhor", e não
utilize ""doutor"", uma discriminação, a rigor um constrangimento que
inequivocamente afeta a igualdade de tratamento garantida na prática plena do
Evangelho de Jesus.
Enquanto houver oradores que não se reconheçam como indivíduos comuns e
acreditem merecer o tratamento cerimonioso, submetido às formalidades dos
protocolos sociais, com cuidadosa discriminação em vários graus de adequação e
propriedade, indiscutivelmente refletirá a prova de seu "potencial doutrinário"
e "superioridade moral", incentivando comportamentos destorcidos das propostas
cristãs.
É bastante conhecida a influência que as elites exercem nos diversos setores da
sociedade e, como não poderia deixar de ser, também no movimento espírita.
Fragmentos dela (elite) acabaram assumindo postos de comando nas federações e
casas espíritas. E como veneram as glórias sociais, os títulos e o sentar nos
primeiros lugares dos eventos o desfile da vaidade passa a ser apenas uma
reflexo natural desse anti-espiritismo bem conhecido dos dias de hoje onde a
troca pública de amabilidades é apenas o verniz da doença moral da nossa época.
Chico Xavier já advertia em 1977, "É preciso fugir da tendência à 'elitização'
no seio do movimento espírita(...)o Espiritismo veio para o povo. É
indispensável que estudemo-lo junto com as massas mais humildes social e
intelectualmente falando e deles nos aproximarmos(...)Se não nos precavermos,
daqui a pouco estaremos em nossas casas espíritas apenas falando e explicando o
Evangelho de Cristo, às pessoas laureadas por títulos acadêmicos ou
intelectuais(...)"(5)
Os "expositores-doutores" não devem esquecer que Chico Xavier, Divaldo Franco,
tanto quanto no passado Léon Denis , não poderiam participar desses conclaves
regidos pelo peso dos títulos acadêmicos, sob pena de se sentirem desambientados
e constrangidos, por não terem titulação conferida pelas universidades do mundo.
Isto para não citarmos o próprio Cristo, que não passou da condição de modesto
carpinteiro. "Por mais respeitáveis os títulos acadêmicos que detenhamos, não
hesitemos em nos confundir na multidão para aprender a viver, com ela, a grande
mensagem. (...)"(6)
Não será com a construção de templos luxuoso , com competições de cargos
eletivos, com disputas de exibição da tribuna entre os doutores, com as querelas
dos simpósios, que iremos forjar opiniões equilibradas para a Terceira
Revelação.
O importante é que haja menos competição e mais cooperação, a fim de transferir
a Doutrina para as futuras gerações, conforme a recebemos do Codificador e dos
seus iluminados trabalhadores das primeiras horas.
Não é possível continuarmos ouvindo oradores, laureados pelo tratamento de
doutores, realizarem discursos ufanistas de felicidade enquanto a humanidade
agoniza na indigência da ignorância das letras.
FONTES:
(1) O Aurélio define os pronomes de tratamento como "palavra ou locução que
funciona tal como os pronomes pessoais". Os gramáticos, por sua vez, ensinam que
esses pronomes são da terceira pessoa, substituindo o "tu" da segundo pessoa
(2) Alguns recorrem a LEI DO IMPÉRIO DE 11 DE AGOSTO DE 1827, que cria dois
cursos de Ciências Jurídicas e Sociais, introduz regulamento, estatuto para o
curso jurídico e, em seu artigo 9º dispõe sobre o Título (grau) de "doutor" para
o Advogado,
(3) Nos países de língua inglesa, os médicos são chamados de "doctor". Quando
escrevem artigos, ou em seus jalecos, no entanto, não empregam o termo, mas
apenas o próprio nome, acompanhado da abreviatura M.D. (medical degree), isto é,
"formado em Medicina", "médico".
(4) Problemas do Cerimonial. Nos círculos fechados da diplomacia, do clero, da
burocracia governamental, do judiciário, etc., ainda existe o emprego codificado
(São obrigatórios por Lei) de pronomes de tratamento laudatório, hierarquizados
pela importância oficialmente atribuída a cada cargo
(5) Entrevista concedida ao Dr. Jarbas Leone Varanda e publicada no jornal
uberabense O Triângulo Espírita, de 20 de março de 1977, e publicada no Livro
intitulado Encontro no Tempo, org. Hércio M.C. Arantes, Editora IDE/SP/1979.
(6) Idem |