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Na vida humana, tudo tem uma razão de ser, nada ocorre por acaso, ainda mesmo
quando as situações se nos afigurem trágicas. O recente acidente aéreo, ocorrido
com o Airbus da TAM, que se chocou contra um prédio da empresa, ao lado do
Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo, no dia 17 de julho de 2007,
parece-nos um evidente episódio de resgate coletivo.
Muitos desses acertos de contas são demonstrados pelos Espíritos, em diversas
obras da literatura espírita. André Luiz narra um desastre aéreo, em que o
piloto, confuso pelo denso nevoeiro, não pôde evitar o choque da grande
aeronave, espatifando-se contra a montanha. Neste caso, um instrutor espiritual
comenta que “as vítimas certamente cometeram faltas em outras épocas, atirando
irmãos indefesos da parte superior de torres altíssimas para que seus corpos se
espatifassem no chão; suicidas que lançaram-se de altos picos ou edifícios, que
por enquanto só encontraram recursos em tão angustiante episódio para
transformarem a própria situação”. (1)
Quanto aos parentes mais próximos das vítimas, como inseri-los no contexto dos
fatos? Pela lógica da vida, eles (os parentes, sobretudo os pais), muitas vezes,
foram cúmplices de delitos lamentáveis no passado, e, por isso, necessitam
passar por essas penas, entronizando-se, aqui, a idéia de que o acaso não existe
na concepção espírita.
Como entender a magnanimidade da Bondade de Deus e o ensinamento do Cristo, ante
as mortes coletivas, ocorridas em l961, naquele patético incêndio do “Gran
Circus Norte-Americano”, em Niterói? Como compreender os óbitos registrados no
terremoto que atingiu a cidade histórica de Bam, no Irã, no final de 2003? Como
explicar o acidente com o Boeing da Flash Airlines, que ocorreu no Egito,
provocando a morte de 148 pessoas que estavam a bordo daquela aeronave, em 3 de
janeiro de 2004? Qual o significado dos que foram tragados pelas águas do
Tsunami, tragédia, cujas dimensões deixaram o mundo inteiro consternado? O que
pensar, ainda, sobre o naufrágio do Titanic, transatlântico que transportava
cerca de 2.200 pessoas? O que dizer das quase 3.000 vítimas decorrentes do
ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, a 11 de setembro de
2001? Como interpretar esses destinos?
Para as tragédias coletivas, somente o Espiritismo tem as respostas lógicas,
profundas e claras, que explicam, esclarecem e, por via de conseqüência,
consolam os corações humanos, perante os ressaibos amargosos dessas situações. O
fato é que nós criamos a culpa, e nós mesmos formatamos os processos para
extinguir os efeitos. Ante as situações trágicas da Terra, o ser humano adquire
mais experiência e mais energias iluminativas no cérebro e no coração, para
defender-se e valorizar cada instante de sua vida. Com as verdades reveladas
pelo Espiritismo, compreende-se, hoje, a justiça das provações, entendendo-as
como sendo uma amortização de débitos de vidas pregressas.
Autores espirituais explicam, a respeito desse assunto, que indivíduos
envolvidos em crimes violentos, no passado e, também, no presente, a lei os traz
de volta, por terem descuidado da ética evangélica. Retornam e se agrupam em
determinado tempo e local, sofrendo mortes acidentais de várias naturezas,
inclusive nas calamidades naturais. Assim, antes de reencarnarmos, sob o peso de
débitos coletivos, somos informados, no além-túmulo, dos riscos a que estamos
sujeitos, das formas pelas quais podemos quitar a dívida, porém, o fato, por si
só, não é determinístico, até, porque, dependem de circunstâncias várias em
nossas vidas a sua consumação , uma vez que a lei cármica admite flexibilidade,
quando o amor rege a vida e “o amor cobre uma multidão de pecados.” (2)
Nossos registros históricos pelas vias reencarnatórias, muitas vezes acusam o
nosso envolvimento em tristes episódios, nos quais causamos dor e sofrimento ao
nosso próximo. Muitas vezes, em nome do Cristo, ateamos fogo às pessoas, nos
campos, nas embarcações e nas cidades, num processo cego de perseguição aos
“infiéis”. Com o tempo, ante os açoites da consciência, deparando-nos com o
remorso, rogamos o retorno à Terra pelo renascimento físico, com prévia
programação, para a desencarnação coletiva, em dolorosas experiências de
incêndios, afogamentos e outras tantas situações traumáticas para aliviar o
tormento que nos comprime a mente.
Ao reencarnarmos, atraídos por uma força magnética (sintonia vibratória),
conseqüente dos crimes praticados coletivamente, reunimo-nos circunstancialmente
e, por meio de situações drásticas, colhemos o mesmo mal que perpetramos contra
nossas vítimas indefesas de antanho. Portanto, as faltas coletivamente cometidas
pelas pessoas (que retornam à vida física) são expiadas solidariamente, em razão
dos vínculos espirituais entre elas existentes. Destarte, explica Emmanuel:“na
provação coletiva verifica-se a convocação dos Espíritos encarnados,
participantes do mesmo débito, com referência ao passado delituoso e obscuro. O
mecanismo da justiça, na lei das compensações, funciona então espontaneamente,
através dos prepostos do Cristo, que convocam os comparsas na dívida do
pretérito para os resgates em comum, razão por que, muitas vezes, intitulais –
doloroso acaso - às circunstâncias que reúnem as criaturas mais díspares no
mesmo acidente, que lhes ocasiona a morte do corpo físico ou as mais variadas
mutilações, no quadro dos seus compromissos individuais.” (3)
Embora muitos acidentes nos comovam profundamente, seriam as tragédias
suficientes para o resgate de crimes cruéis praticados no pretérito remoto?
Estamos convencidos de que não, muito embora as situações - como essa vivenciada
no dia 17 de julho de 2007 – nos levam a questionar, como, por exemplo: Por que
esses acontecimentos funestos que despertam tanta compaixão? Seria uma
Fatalidade? Coisa do destino? Que conceitos estão nos desenhos semânticos dessas
palavras?
Para o espírita “fatal, no verdadeiro sentido da palavra, só o instante da
morte” (4), pois, como disseram os Espíritos a Kardec : “quando é chegado o
momento de retorno para o Plano Espiritual, nada “te livrará” e frequentemente o
Espírito também sabe o gênero de morte por que partirá da terra”, “pois isso lhe
foi revelado quando fez a escolha desta ou daquela existência”. (5) Mais, ainda:
“Graças à Lei de Ação e Reação e ao Livre-Arbítrio, o homem pode evitar
acontecimentos que deveriam realizar-se, como também permitir outros que não
estavam previstos”. (6) A fatalidade só existe como algo temporário, frente à
nossa condição de imortais, com a finalidade de “retomada de rumo”. Fatalidade e
destino inflexível não se coadunam com os preceitos kardecianos. Quem crê ser
“vítima da fatalidade”, culpa somente o mundo exterior pelos seus erros e se
recusa a admitir a conexão que existe entre eles.
O homem comum, nos seus interesses mesquinhos, não considera a dor senão como
resgate e pagamento, desconhecendo o gozo de padecer por cooperar, sinceramente,
na edificação do Reino do Cristo. Aquele que se compraz na caminhada pelos
atalhos do mal, a própria Lei se incumbirá de trazê-lo de retorno às vias do
bem. O passado, muitas vezes, determina o presente que, por sua vez, determina o
futuro. "Quem com ferro fere, com ferro será ferido" (7), disse o Mestre. Porém
, cabe uma ressalva, nem todo sofrimento é expiação. No item 9, cap. V, de O
Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec assinala: "Não se deve crer,
entretanto, que todo sofrimento porque se passa neste mundo seja,
necessariamente, o indício de uma determinada falta: trata-se, freqüentemente,
de simples provas escolhidas pelo Espírito para sua purificação, para acelerar o
seu adiantamento".(8). São claras as palavras do Codificador.
Não estão corretos aqueles que generalizam e afirmam que todo sofrimento é
resultado de erros praticados no passado. O desenvolvimento das potencialidades,
a subida evolutiva, requer trabalho, esforço, superar desafios. Neste caso é a
provação, e não, a expiação, ou seja, são as tarefas a que o Espírito se
submete, a seu próprio pedido, com vistas ao seu progresso, à conquista de um
futuro melhor.
Dentro do princípio de Causa e Efeito, quem, em conjunto com outras pessoas,
agrediu o próximo não teria que ressarcir o débito em conjunto? É esse o chamado
"carma coletivo". (9) Toda ação que praticamos, boa ou má, recebemos de volta.
Nosso passado determina nosso presente não existindo, pois, favoritismos,
predestinações ou arbítrios divinos. A doutrina espírita não prega o fatalismo e
nem o conformismo cego diante das tragédias da vida, mesmo das chamadas
tragédias coletivas. O que o Espiritismo ensina é que a lei é uma só: para cada
ação que praticamos, colheremos a reação.
O importante para os que ficam por aqui , na Terra, para que tenham o avanço
espiritual devido, é não falir pela lamentação, pela revolta pois “as grandes
provas são quase sempre um indício de um fim de sofrimento e de aperfeiçoamento
do Espírito, desde que sejam aceitas por amor a Deus”.(10)
Diante do exposto, afirmamos que a função da dor é ampliar horizontes, para
realmente vislumbrarmos os concretos caminhos amorosos do equilíbrio. Por isto,
diante dos compromissos cármicos, em expiações coletivas ou individuais,
lembremo-nos sempre de que a finalidade da Lei de Deus é a perfeição do
Espírito, e que estamos, a cada dia, caminhando nesta destinação, onde o nosso
esforço pessoal e a busca da paz estarão agindo a nosso favor, minimizando ao
máximo o peso dos débitos do ontem.
FONTES:
(1) Xavier, Francisco Cândido. Ação e Reação, Cap. XVIII, RJ: Ed FEB, 2005
(2) Cf. Primeira Epístola de Pedro Cap. 4:8
(3) Xavier, Francisco Cândido. O Consolado, RJ: Ed FEB, 2002, Perg 250
(4) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed FEB, 1979, pergs. 851 a 867
(5) Idem
(6) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed FEB, 1979, perg
(7) Cf. JOÃO. 18:11
(8) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Ed FEB,
2001, item 9, cap. V
(9) A palavra karma é oriunda da raiz sânscrita "kri", cujo significado é ação.
Karma é portanto, Lei de Causa e Efeito, ou ainda, de acordo com a terceira lei
de Newton, conhecida como o “princípio da ação-e-reação”, que diz: "a toda ação
corresponde uma reação, com mesma intensidade, mesma direção, mas de sentido
contrário". E o Cristo, ao recolocar a orelha do centurião romano, decepada pela
espada de Pedro, sentenciou: "Pedro, embainha tua espada, pois quem com ferro
fere, com ferro será ferido". Podemos notar, aí, dois enunciados da mesma Lei de
Ação e Reação: um, de maneira científica e, outro, de modo místico. O vulgo diz
: "Quem semeia vento, colhe tempestade".
(10)Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, RJ: Ed FEB, 1989, Cap.14, |