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Vivemos tempos complexos e tormentosos. Há violências de várias nuanças em toda
parte do Orbe. "A violência urbana é reflexo natural dos que administram
gabinetes luxuosos e desviam os valores que pertencem ao povo; que elaboram Leis
injustas, que apenas os favorecem; que esmagam os menos afortunados,
utilizando-se de medidas especiais, de exceção, que os anulam; que exigem
submissão das massas, para que consigam o que lhes pertence de direito...
produzindo o lixo moral e os desconsertos psicológicos, psíquicos, espirituais".
(1)
Em nosso País, o cenário político e social é frustrante. Entre denúncias de
corrupção, omissões e de venalidade, sobra diminuta fé nos homens investidos de
funções no serviço público. Fala-se muito em políticas públicas, porém, o que
mais tem prejudicado a aplicação dessas políticas é o nível de descrédito a que
chegou o Estado com suas "instituições". A sociedade política é vista com
suspeita, quando não, com hostilidade pela sociedade em geral.
No Brasil, a Proclamação da República, engendrada de cima para baixo, não teve
como conseqüência a incorporação dos valores republicanos legítimos da
transparência e da honestidade. A impunidade ensombra a Justiça e instiga novos
desmandos. A massa, em geral, se espelha nos personagens eminentes da vida
pública e procura, nas ressonâncias no comportamento destes, as próprias
justificativas para seus deslizes deliberados.
O jargão "jeitinho brasileiro", ou levar vantagem a despeito de tudo e de todos,
irrompe-se como um escopo cristalizado, que se potencializa e se generaliza na
tessitura do tecido social. A concepção do êxito ou sucesso pessoal, como
resultado de um labor continuado e sistemático, torna-se pouco atraente. A
entronização do "jeitinho" dos que resistem ao bom senso e à ética não mais
significa espírito criativo, na essência, mas artimanhas dos espertalhões e
ausência de caráter dos gazeteiros das aulas de honestidade.
Muitos se interrogam no imo da consciência: Haverá futuro promissor para uma
sociedade assim estruturada? Reflitamos nas notícias da História, que nos
fornecem inúmeros exemplos de civilizações que se corromperam sob o império da
defecção moral.
Em Roma, no momento histórico do Império, os costumes e os valores se
degeneraram. Alguns pensadores e filósofos mostraram-se angustiados nos seus
textos com o estado de coisas daquelas épocas recuadas de então. Muitos juristas
deixaram registros escritos que denotavam suas preocupações com a corrupção que
invadia a vida pública romana. Alguns outros, porém, se preocupavam em propagar
as medidas populistas, freqüentemente, adotadas pelos governantes inebriados
pelo poder da força, e não pela força do poder.
Muitas deliberações dos governantes atendiam a caprichos da massa, narcotizando
suas mentes com os nacos de pães e espetáculos circenses , sem educá-la ou
destiná-la ao trabalho produtivo.
A rigor, quem trabalhava era, coercitivamente, apenado com densos tributos, a
fim de que "pujantes benefícios" fossem concedidos pelo Estado.
Consubstanciavam-se, naqueles idos tempos, a retórica e a prática do
assistencialismo, às sombras dos impostos, arbitrariamente, cobrados.
Entretanto, o que mais indignava os sóbrios pensadores, da Era áurea de Roma,
era a corrupção e a troca de favores, envolvendo o dinheiro público.
O bom senso sussurra-nos na acústica da consciência que cabe ao Estado assegurar
direitos, formalmente, garantidos nas bases constitucionais da sociedade,
politicamente, organizada. Entretanto, não apenas isso, mas espera-se, também,
que o Estado mantenha os serviços de interesse coletivo em funcionamento normal.
Sabemos que há juristas, cientistas políticos, sociólogos, economistas,
pesquisadores e estudiosos de outras áreas do conhecimento, inclusive, dedicando
tempo precioso e esforços contínuos para entenderem e melhorarem o funcionamento
do aparato estatal, com vistas ao bom andamento dos interesses coletivos.
Mas......!!!
Não precisamos fazer um esforço sobre-humano para percebermos a similitude entre
a conjuntura do cenário brasileiro atual e a sociedade romana de dois mil anos
atrás. Ainda respiramos os mesmos ares enfadonhos do regime do compadrio. O
dinheiro público (que deveria ser destinado ao povo) é rateado entre alguns,
como se fosse propriedade particular.
A humanidade evoluiu, suficientemente, sob os aspectos filosófico-intelectual e
científico-social, nesses dois milênios, mas as práticas estão enregeladas no
tempo. Todos nós estamos à mercê das atitudes inconscientes ante os desafios da
vida hodierna. Alguns avanços permanecem tíbios, no que tange à moralidade. Em
conseqüência, o País e o próprio Mundo seguem conturbados e carentes de maior
harmonia coletiva.
Com os escândalos divulgados pela mídia, constata-se um entrelaçamento crescente
e preocupante entre a administração pública e as atividades criminosas, mediante
um sistêmico processo de pressões, chantagens, tráfico de influência,
intimidações e corrupções, com o uso do suborno e da propina, dentre outras
falcatruas morais inimagináveis.
Na verdade, todos nós sofremos em razão da falta de Ética. Uma das possíveis
conceituações de Ética nos é dada pelo Dicionário Aurélio: "Estudo dos juízos de
apreciação referentes à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal." Urge
salientar, porém, que Ética e moral não são a mesma coisa, segundo o pensamento
de muitos autores. A moral seria a soma dos hábitos, tradições, leis e costumes
que sustentam uma sociedade. Portanto, seria de caráter coletivo. A Ética
presume escolha voluntária de valores aos quais cada um se submete por vontade
própria.
O fenômeno do mundo globalizado trouxe em sua esteira o receituário ideológico,
estabelecendo parâmetros de conduta baseados na ética do mercado, isto é,
baseados na competição e no exacerbado individualismo. Nesse carreiro, a
inadimplência faz com que os muitos preços de produtos e serviços sejam maiores
do que deveriam ser. Os porcentuais desviados do dinheiro público dificultam a
construção de creches, escolas e hospitais, entre outras obras públicas, uma vez
que a desorganização política e a corrupção constituem conseqüências e fatores
causais de desorganização social.
Se quisermos viver num mundo melhor, devemos nos empenhar em promover uma
reforma ética generalizada. Toda mudança começa por cada um de nós. Para que a
sociedade melhore, cada qual deve se esforçar por se aprimorar. É imperativa a
adoção de novos hábitos. Chega de procurar levar vantagem, de fugir dos próprios
deveres. Vamos, definitivamente, dar um basta às mentiras, às fraudes e às
sonegações fiscais.
Urge sacralizar o bem público, pois todos nós somos responsáveis por ele.
O erário público não existe para ser apropriado por alguns mutilados do caráter,
mas para atender às necessidades intransferíveis da coletividade. Destarte,
mister se faz a intransigente fiscalização de sua utilização, como cumprimento
de um dever intransferível.
Quando formarmos uma sociedade consciente de seus deveres, apenas isso já nos
garantirá desfrutarmos de um grande bem-estar social.
Que se restabeleçam os valores da Ética Cristã e que se revitalize o mundo da
honestidade. A que ora presenciamos, por estar fundada em valores (sem valor),
necessita de um ethos compatível para se manter: o cinismo, o sadismo e as
mentiras consentidas.
Se pretendemos impugnar a centralidade da ética no humano, e, com isso,
fundarmos um horizonte de abertura à arbitrariedade, à irresponsabilidade ou
mesmo, num exercício abusivo dessa irracionalidade, à desumanização e a
barbárie, cumpre-nos afirmar a primazia da ética na Administração Pública, por
ser a instância fundante do valor dos valores da Administração: o interesse
público.
Na condição de espírita que somos, sabemos que, para a criação da "República da
Ética Cristã", será necessária uma renovação mental e comportamental, já em
curso por força das circunstâncias, mas que pode ser acelerada pela disseminação
dos saberes que valorizam a honestidade, a dignidade da vida humana, a natureza
e, até mesmo, a nossa subjetividade espiritual.
Neste contexto "o Espiritismo, em razão da sua complexa estrutura cultural,
científica, moral e religiosa, é a doutrina capaz de equacionar o sofrimento,
liberando as suas vítimas." (2) Desta forma, acreditamos que a Doutrina Espírita
"chega, neste momento grave, como resposta do Céu generoso à Terra aflita,
oferecendo diretrizes, equipamentos e luzes que proporcionam a paz." (3)
FONTES:
FRANCO, Divaldo P. "Amor, imbatível amor". Pelo Espírito Joanna de Ângelis, 6ª
ed. Salvador, BA: LEAL, 2000, p. 84
FRANCO, Divaldo P. "Plenitude". Pelo Espírito Joanna de Ângelis, 9ª ed.
Salvador, BA: LEAL, 2000, p. 132
FRANCO, Divaldo P. "Desperte e seja feliz". Pelo Espírito Joanna de Angelis, 6ª
ed. Salvador, BA: LEAL, 2000, p. 12 |